O jogo chegára a um ponto que requeria a attenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a bocca para a passagem das expressões obrigadas do poker.

Padre Assumpção continuava a sua leitura, de pé, com o hombro encostado ao angulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente á moldura do movel, confundindo-se com elle na sombra do aposento.

Os tres jogadores eram de bem differente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Telles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escoceza picada por um rubi fulgurante.

Representante do Paraná, que o tinha como um politico habil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a familia carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleavel, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes politicas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e dest'arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, elle apparentava menos edade do que a que tinha realmente. Falava com socego, num agradavel timbre de voz. Ás vezes mesmo Caldas caçoava:

—Na camara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C'est la voix d'or, do Congresso!

Assim como a voz elle tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se applicára nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anneis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos correctissimos.

Em frente d'elle, Adolpho Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se á vontade no seu veston de panno preto, com um bom ar de despretenciosa superioridade.

O Adolpho Caldas dizia-se rio-grandense, mas affirmavam alguns que elle era nascido em Montevidéo, de familia brasileira. Vivia desde os vinte annos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda, de financeiros illustres e ministros afamados, chegando-se para as arvores de substanciosos fructos e boa sombra. Solteirão, intermediario de bons negocios, permittia se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cór.

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portuguezes, classicos sobretudo. Era com elle que o padre Assumpção conversava ás vezes sobre litteratura antiga, certo de que os bons livros espirituaes, como os profanos, tinham a mesma admiração no juizo competente d'aquelle homem de tão experta sagacidade.

Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os calices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.