Todos mais ou menos se entretêem ali e se divertem alguma vez, menos os furiosos. Ha theatro de tempos a tempos; e pelas festas de junho, arraial.
De ordinario os doidos que representam,—dos mais quietos, já se vê, e dos que costumam estar dias, semanas, mezes ás vezes sem[{69}] dar signaes de alienação—dizem os seus papeis regularmente, mas falta-lhes expressão de physionomia, gesto, movimento, olhar, tudo que auxilia e completa a phrase. São espectaculos mais curiosos do que recreativos.
Até os idiotas poderão bailar nos arraiaes ao som da flauta do companheiro:—os furiosos, não; arredados de tudo e de todos, hão de ir gritando, extorcendo-se, rugindo na solidão atroz do seu carcere!...
O sentimento da liberdade, que sobrevive a todos, até nas creaturas que perderam o juizo, não os abandona ainda assim. Querem sair, sair!
As mulheres são mais furiosas do que os homens. Estes de ordinario[{70}] agitam-se durante horas, depois caem prostrados no somno lethargico que succede á furia. Ellas, fallam e berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notaveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas tendencias malfazejas—atirando sempre que podem uma tigella contra as grades, e os cacos á cara de quem vae.
Algumas são verdadeiramente horriveis.
Uma gira todo o dia—mas todo o dia!—descalça, em roda do quarto. Tira-se-lhe a enxerga para poder andar n'aquellas voltas, como a hyena na jaula. Depois, á noite, põem-lhe a enxerga: cae sobre ella, e enrosca-se.[{71}]
Uma rapariga de Coimbra, que não falla senão de um retrato, tem de estar de collete porque marinha pelas grades.
Aquella, de Lamego, que dá pancadas em quem apanha, atira com o pão em pedaços—para as almas!
Esta, de Guimarães,—com certo ar de astucia machiavelica no fundo da loucura—está doida um dia sim, um dia não. No dia em que não está doida, trabalha. É uma alienação á maneira das sezões.