Não era boneco, era deveras um cadaver.
Na vespera fallecera em Rilhafolles um doido israelita. Prevenidos os seus, mandou o presidente[{74}] da Sociedade hebraica dois homens para envolverem o cadaver n'um lençol, deposital-o n'um quarto isolado, de cara e ventre para baixo, sem caixão, e ficarem de guarda á porta. Como era sabbado—dia santo para elles—não lhe mechiam em quanto não fossem nove horas. Haviam pedido, para a noite, café, pão, manteiga, genebra e cigarros. Na madrugada deviam partir para levarem o cadaver e enterral-o no alto do Varejão.
Aquelle era talvez o mais feliz de quantos ali ficaram n'essa noite. Já não ouvia sequer os clamores da raiva, os rugidos da paixão, os arrancos de desespero e de furia dos companheiros. Estes estão mortos[{75}] tambem, de alguma maneira; mas é de mais, e é pouco! Se aquelles braços que se agitam, se aquellas vozes que estrugem, se aquelles dentes que rangem são a materia—que é da alma?...
Á saida, o jardim é triste, triste; e os pingos de chuva, que ficam nas pétalas das flores, brilham que parecem lagrimas. Depois, se se levanta a cabeça, estremece-se ao ver o ceu, como contraste—por cima d'aquella miseria continua!...[{76}]
V
Telha
Tambem os ha cá por fóra!
Mansos, com falla, sem collete, passando a vida á procura do motu-continuo, de um ministerio adoravel, de dhalias azues, de acabar com o deficit, da perfeição no amor, do circulo bicudo...