O pae fica embuchado, e medita.

Vae vivendo sempre, e medrando. Com o tempo torna-se homem politico. Quer endireitar o paiz. Para elle ha uma idéa só e uma só palavra—supprimir. No fervor da crise das economias vae de uma vez a uma reunião politica, onde se discutem os maiores problemas. É n'um terceiro andar. Muito escura[{82}] a escada. Dão-lhe um rolinho. Aceita; desce, pensando nas economias; no patamar acha-se ainda com um bocadinho de rôlo; torna a subir, para ir entregar o resto; desce depois ás escuras,—pensando sempre em economias...

Quantos! Quantos andam por essas ruas!...

Este, quer á força parecer inglez. É filho de virtuosos burguezes nacionaes, e foi creado em menino por uma ama do Reguengo grande—como qualquer de nós; mas tem a preoccupação constante do shoking, usa bota de duas solas, calça sal e pimenta, encarquilhada sobre o pé, collete inglezado, gravata de seda frouxa com[{83}] as pontas pendentes, caçadeira, chapeu de aba direita. Bambaleia horisontalmente na mão um bengalorio revirado n'uma das extremidades com muitos nós, muitos nós... Ah! Ninguem sente como elle escaldarem-se-lhe, ou, para dizer melhor, refrescarem-se-lhe as arterias com sangue inglez! Pára no meio das praças a examinar os monumentos; defuma o fato com carvão de pedra, para parecer que veiu do paquete instantes antes; e mira maravilhado a estatua de D. José, examinando, estudando, tomando apontamentos, medindo, comparando, admirando, criticando com gestos expressivos, sem perder tempo;—time is money! E passeia; e corta;[{84}] e gira; e vae indo, inglezmente, até ao alto de S. João. Estão abertas de par em par as portas do cemiterio... Entra, segue uma das ruas, examinando as inscripções das campas; escolhe um tumulo que lhe pareça commodo, e senta-se. Não ha, digam o que quizerem, melhor logar para ler o Times. O Times está n'uma das algibeiras da caçadeira. Lê o Times com imperturbavel serenidade. Acabada a leitura, apanha um raminho de cypreste, guarda-o na carteira: dobra o jornal e mette-o no bolso. É noite; vae para casa,—acabou de ser inglez até ao outro dia!

Ha um que foi celebre entre os bebedores; desde que os bebedores[{85}] se chamam piteireiros, pareceu esconder-se. Os amigos, companheiros das sucias, estranharam que assim se despedisse do vinho sem dizer—agua vae. Elle respondia sempre, e responde—que já não bebe, que lhe fazia mal, que ia a soffrer por causa d'isso, que não vale a pena... Engana os outros, mas, o que é mais singular, engana-se a si. Em casa, fechado e sosinho, põe-se á mesa com uma garrafa e dois copos. Depois, como se fallasse com alguem:

—Prova, diz. Prova d'este, do Alemtejo!

E, disfarçando a voz, como se fosse outrem que respondesse, retroca a si proprio:[{86}]

—É muito palhete. Bons vinhos mas muito palhetes! Prefiro, se insistes, um copo de Collares.

—É Collares picado o que posso offerecer-te!

E, pondo na mesa a garrafa, enche dois copos.