—Á tua saude! prosegue, bebendo ambos.
Ah! Quantos, quantos!
Alguns até de que ninguem desconfia e que fazem cousas que chegam[{88}] a parecer serias; os folicularios, inaptos ou calumniadores; inaptos não reparam que se cortam no proprio gume da arma; calumniadores, não vêem o tribunal da Boa Hora e têem-o diante de si;—uns exaltados ridiculos, a arder em aspirações phantasticas;—uns pimpões de palavra, sempre em prologo de valentia, pernada cá, pernada lá, quatro leguas á roda da sala em passo gymnastico, preparando casos, annunciando heroismos, vociferando contra este e aquelle, resolvendo castigar, destruir, arrazar: tutto parole, parole, parole!—Um que quer cantar sem voz, e móe os ouvidos das pessoas por casas particulares, festas, concertos,[{89}] cantando tudo, dizendo que dá o dó, e não dando cousa nenhuma senão cabo da paciencia á gente!
O jogador tençoeiro, que vae de queda em queda—como outros vão de bamburrio em bamburrio—para cair no abysmo, para que se lhe devore a ultima libra, para que as dividas lhe levantem assuada á porta, para que a mão da penhora lhe pouse no hombro, e as garras da usura o esganem!...
O que desdenha de tudo, estraga tudo, como a toupeira n'uma horta; e massa com semsaborias, que caem no ouvido syllaba por syllaba, como pingos de chuva da rama de um chorão...—O que attribue tudo aos jesuitas, não scisma,[{90}] não dorme, não sonha senão com jesuitas. Tudo a mão de Roma, a mão de Roma...—O que, em apanhando piano, principia logo a tocar com um dedo horas a fio.
Os sexagenarios maganões, que armam terceira mocidade, postiça como a cabelleira e a dentadura, e vão, bem retocados, em conquista...
A antithese d'esses:—velhos precoces, já enfastiados de tudo em meninos: aventuras que não são visiveis sem lente; escandalos que Platão consideraria chôchos; concebendo Lisboa apocalypticamente, como se fôra mãe dos sete peccados mortaes e excedesse as orgias[{91}] de Babylonia. Não sabe a gente, ao ouvil-os, se está no Azul se no meio do chão! Aos vinte annos já não dançam, e usam luneta côr de fumo nos olhos fatigados... do gaz do Martinho!
Um não pensa senão em albuns. Tem dois seus, dois da familia, um da namorada, e tres dos visinhos. Pede-nos o retrato; peior ás vezes,—quer trocar. Tambem deseja um pensamento para o album de authographos; qualquer coisa; exemplo:.—«As ginjas são talvez melhores á sobremesa, do que para prato de meio.» Conceitos!—Outro, leva o anno inteiro a scismar como ha de disfarçar-se pelo entrudo; como ha de farruscar a cara,[{92}] o que ha de pôr no nariz...—Outro, conversa muito alto, n'este estylo que lhe parece optimo:—Diga-me se não é anomalo, acephalo, hybrido, através da civilisação e do progresso, ver as nações atrophiarem-se em carnificina, á maneira dos povos barbaros, ou dos tempos em que as sociedades mergulhavam nas trevas da superstição e da ignorancia. O meu amigo é ecletico?
E os que faltam sempre, promettem para faltar, offerecem para não cumprir, nunca vão a horas—o maior dos erros, exemplo aquelle diplomata que chegou tarde á morte do seu principe e foi dar com a rainha a fazer papelotes!—que[{93}] se esquecem de tudo, ou antes não se esquecendo—pensando n'outra coisa, diversa sempre da que estão fazendo, da que estão dizendo. Gente que baralha tudo, troca, atropella, estraga; trapalhões de officio e de geito. Um deita rapé no chá em vez de assucar; outro cuida que está no botequim, e põe um tostão no pires quando toma café na casa alheia; outro nas conferencias do Casino ia já a estender o braço para o copo d'agua do prelector, e bebia-lho se o não pucham a tempo. Alguns chegam a esquecer-se do nome que têem, ficam parados á porta do correio geral á espera de que passe alguem que lhes diga como elles se chamam, e irem então[{94}] reclamar a carta; a correr, antes que lhes esqueça o nome outra vez!..: Telha, pois que?—telha, e rija!...
Digamos o peior;—quasi todos nós temos um pouco d'isso. Ha principalmente dois mezes do anno em Portugal, maio e junho, em que toda a gente anda com telha...