«Um.

«Dois.

«Tres.»

Depois, seguro de que tudo irá bem, sóbe e entra.

Um, homem gordo, de physionomia benevola, fallando com ar sentencioso a quem por civilidade fingia dar-lhe ouvidos, ia sempre tomar o seu café ao mesmo botequim havia muitos annos, suppondo ser o unico que não envenenava os freguezes. Achava n'aquelle café, do antigo Nobrega, hoje Aurea Peninsular, rua do Ouro, grandes vantagens para as propriedades sanitarias e digestivas. Em indo a outro, ficava doente. Quando ha sete annos o botequim fechou, elle[{103}] acabou de jantar, foi muito lepido pela rua do Ouro, dirigindo-se ao seu cafésinho,—encontrou as portas fechadas, e morreu. Muita gente o conhecia em Lisboa, e deve lembrar-se d'elle; os jornaes contaram o caso.

Alguns são beatos. Têem uma religião lá d'elles;—a religião do enguiço. Não querem ouvir comedias com receio de frescuras; nos bailes, em traje de ceremonia, luvas, etc., permittem-se olhar para as senhoras embora decotadas; mas em S. Carlos impõem-se crueldades gothicas, e quando apparecem as bailarinas, tão frescas e tão pouco vestidas que até o beato Antonio haveria arriscado um olho, como[{104}] o meu amigo leitor ou eu, fecham elles ambos.—Conheci um que, quando lia n'um jornal a palavra Deus, interrompia a leitura para atirar com o papel ao ar.—Ha outro que não póde passar diante de um nicho de santo sem que immediatamente leve as mãos ao rosto e o esfregue, como para se lavar das impurezas que o santo não deve presencear. Como fosse em certo dia guiando um carro e visse um nicho cavado na fronteira de certo predio, largou immediatamente as redeas e pôz-se a lavar o rosto em sêcco. O cavallo, sentindo-se sem governo, tomou o freio nos dentes, fugiu, e por felicidade não deu cabo do enguiçado e do amigo[{105}] que elle levava em sua companhia.

Ha uns que porfiam em conservar toda a noite durante o somno a attitude em que estão quando o somno os surprehende. Um diligenciou muitas vezes ser mais forte ainda e fez grandes tentativas para dormir de corpo no ar, só com as mãos ambas encostadas á bordinha do colxão, como se faz ao saltar para a cama; não o conseguiu, como podem crêr, e deu muitos trambulhões.

Um pintor, que foi do Porto para o Rio de Janeiro, tinha enguiço de pintar pretos. Por mais que o instassem, o pobre artista negrophilo não consentia por ter dó de[{106}] obrigar os moleques a estarem para ali espécados, e cuidar que isso tiraria a fortuna ao quadro. Punha um creado branco no logar do escravo, depois de lhe farruscar a cara de preto.

Este espantalho de espinha angulosa e nariz atrevido é rico;—faz casas para não morrer. Lá diz o proverbio campesino—«ninho feito, pêga morta.» Avarento, sordidamente miseravel, só é grandioso em fazer predios. Suppõe que em terminando uma obra, morre. Vae acrescentando sempre a casa; compra terrenos, faz crescer a cosinha, estende a capella, alarga as cocheiras. Aguenta-se na vida com muleta de pedra e cal![{107}]

Aquelle está já por tal modo aferrado a manias que chega ás vezes a parecer criminoso, e sente que dá cabo da intelligencia quebrando-lhe os raios com o fechal-a no ciclo estreito e febril dos medos e das apprehensões. Tem sete filhas; quatro estão casadas; duas principiaram a namorar os que hoje são seus maridos no circo Price; as outras duas no Gymnasio. Estão ricas e felizes as duas primeiras; as duas ultimas, pobres e desgraçadas; elle tem a scisma de que ás tres que estão solteiras não convém irem ao Gymnasio, e suspira por vêr aberto o circo Price, a cujos espectaculos sempre concorre com a familia, resmungando á entrada uma[{108}] prece, não sei que lérias piedosas que só elle entende...