Que dança! que dança!
Os d'aqui têem scisma com o sair da escada sem pôr primeiro o pé direito.—Os d'ali em pondo as meias do avesso ficam em torturas, contando que hão de ter dádiva ou insulto, e receiando que venha insulto em vez de dádiva.—Os d'acolá pedem a benção á mãe, e emquanto ella não estender a mão seis vezes não lh'a beijam.—Uns têem terror ás aranhas; outros assustam-se em sonhando com uvas pretas; estes não passam em certas ruas senão do mesmo lado sempre.—Alguns, brutos com toda a gente, são timidos com as creanças. As[{109}] creanças têem o que quer que seja de maravilhoso. Já o Fernão Lopes, na Chronica de D. João I, cita uma ainda de leite que proclamou: Real, real, pelo mestre d'Aviz, rei de Portugal. Os enguiçados que leram esta chronica ficaram tendo pelas creanças uma veneração profunda; os que não a leram—tambem. Batia na mulher todos os sabbados á noite um saloio, ao voltar da taberna—para onde ia tão depressa lhe pagavam a féria. A mulher, coitada, conformára-se com a sua sorte por gostar d'elle e acabára por se costumar com aquella renda. N'isto foi mãe. Apesar de todos os sabbados estar bebado como d'antes, o marido parecia esquecer-se da tósa[{110}] semanal. A mulher, pasmada, disse-lhe uma vez:
—Porque é que tu já me não bates?
E o saloio, enguiçado, desejando romper e quebrar por uma vez com a prisão imaginaria que o tolhia, mas confrangendo-se, esquivando-se, escrupuleando, respondeu de mansinho, apontando para o berço:
—Tenho medo de acordar o pequeno!...
De tudo, entretanto, o mais trivial é não se poder vêr um corcunda sem ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso. Os corcundas sabem isto; sabem-o á legua; não sabem outra cousa; estão fartos de o saber; e[{111}] por isso são tão joviaes. Andam sempre a rir-se do mundo e a enguiçal-o o mais que podem! O melhor do caso, porém, é que um corcunda neutralisa o outro. Eis a rasão porque nunca desde o principio do mundo nenhum philosopho fez a observação de haver encontrado dois corcundas de braço dado. São inimigos capitaes. Um d'estes dias foi encontrado um sujeito—se eu lhes dissesse o nome riam-se!—encerrado n'um portal á espera que passasse um corcunda para o desenguiçar de outro que havia visto.
Ha comtudo um remedio para este mal. Consiste em esfregar na parede uma moeda de dez réis que tenha tocado na giba de um corcunda.[{112}] Mas—para obter o remedio—quantas difficuldades! quantas astucias! quantas subtilezas! O corcunda está sempre prevenido e não se deixa tocar. Ha um muito conhecido em Lisboa, que por mais de uma vez tem posto a policia em bolandas—sómente para garantir a giba do contacto impudico da moeda preservativa.
Ha quem affirme que os vesgos são ainda peiores que os corcundas, e que a sua influencia é de maior malignidade. Felizmente o Mascaró promette acabar com elles,—e não haverá mais enguiçados por este accidente!...
Consolem-se todavia os que teem a scisma do enguiço,—sujeitos de[{113}] pouca fortuna, sedentarios que fazem gallos na nuca a dar com a cabeça nas costas da cadeira; peões para quem estão de reserva as topadas nas pedras das ruas; homens das fatalidades, heroes das pequenas miserias, que farejam na malicia da sorte inquietações para todas as horas do dia; consolem-se uns com os outros, porque ha muitos.
São sujeitos a enguiços os homens pequenos e os grandes homens; homens grandes no corpo e na força;—homens grandes no espirito; phantasistas, poetas, os artistas quasi sempre, a nobreza e o povo, os sabios e os ignorantes; têem enguiços os pastores; e os reis—ha[{114}] uns tempos—andam muito enguiçados!...