Os patetas riem-se d'isto; os homens de juizo, tambem. Singular harmonia! Toda a cautella é pouca em não se indispôr a gente com elles, nem com o acaso;—os enguiços são como as paredes, têem ouvidos; e lá se entendem, lá se entendem entre si... Basta uma palavra de mais para uma pessoa se comprometter e vir depois isso a custar-lhe caro... Máu! Ahi está que n'este instante a penna não quer tomar tinta e está a espirrar-me entre os dedos como se lhe repugnasse escrever.—Vou mergulhal-a no tinteiro... Peior! Deitou-me um borrão no papel...—Basta![{115}] Talvez que este borrão resuma, melhor do que eu podesse fazel-o, o systema dos enguiços. Não escrevo mais.[{116}]

[{117}]

VII

Agouros

Agouro e enguiço não são a mesma cousa. O vulgo confunde ordinariamente o sentido natural destas palavras, que têem todavia uma significação diversa. Agouro significava antigamente predizer o futuro pelo canto, gesto, e pasto das aves (ex avium cantu, gestu, vel pastu futura divino) e por extensão conjecturar[{118}] de qualquer modo. N'este sentido se usa hoje em Portugal, quando por incidentes insignificantes—a que chamamos agouros—queremos predizer o futuro.

O terror—de umas vezes os remorsos, os ciumes queimadores de outras vezes—torna videntes certas creaturas. Mudam de côr, á mesa, se espalham sal na toalha; sobresaltam-se na aridez das praias se succede levantarem com o pé os limos, que cobrem as borboletas do mar; atormentam-se quando ao atravessar charnecas se lhe prende o lenço nas urzes; vêem imagens, conhecidas nos montões de nuvens negras que um relampago allumia. Tudo lhes falla; para elles até a[{119}] materia muda tem lingua. Ouvem presagios no grão de areia que o vento leva, no tremer das folhas, nas borboletas escuras, no voar das nuvens, na agua que reflecte as figuras, na herva que balança ao peso de uma formiga... Ouvem chorar vozes no orvalho, nas trepadeiras se lhes cáe chuva, no canto do gallo fóra de horas, no mocho, nos morcegos, no uivar do cão...

Respiram ares de vertigem, ares doentios. Avistam estocadas á direita e á esquerda; golpes mortiferos; desgraças precipitadas;—a fatalidade delirante; o horror da incoherencia em que tudo lhes parece harmonico. Vivem de cabeça baixa e braços encruzados, agitando n'alma[{120}] questões insoluveis, corre-lhes nas veias com preguiça um sangue fraco que arranja o que se chama agora anemia; doença em que ninguem fallava, e que, estou persuadido, principiou por elles. Gente receiosa e triste a quem o nosso clima estonteia ainda mais, gente que podia passear commodamente á sombra glacial das extensas galerias dos castellos do norte, e para quem a vida é um supplicio atroz,—condemnados de manhã ao Chiado, abrazados de calor; de noite ao Passeio Publico sacudidos pelas ventanias.

Têem todavia essas naturezas o que quer que seja de religioso. Vão seguindo na vida como a Electra[{121}] dos gregos, devota e severa, confiando ás cegas nos oraculos e submettendo-se sem murmurio ás leis da fatalidade. Parecem-lhes legitimos os sacrificios;—dir-se-hia que, como outr'ora, ouvem os deuses pedir-lh'os; offereceriam o pescoço ao cutello resignadamente, como holocausto inevitavel, se o agoiro os avisasse... Os artistas principalmente,—os que são dignos d'este nome, os notaveis, os verdadeiros artistas—têem superstições indestructiveis e muitas vezes os acontecimentos parecem mais tarde dar-lhes rasão. Ha exactamente quatro mezes, n'uma das ultimas manhãs de março, humida e ventosa, o actor Rossi que ia embarcar para o Rio[{122}] de Janeiro, e a quem de Genova haviam mandado um vapor conduzindo a companhia, que não era aquelle que se lhe havia promettido e que elle esperava do contracto, dizia-me em frente do Tejo:

—Adeus. Sinto que não vou ser feliz. Trocaram-me o barco. Presagio funesto.

As noticias infelizmente tem confirmado esse facto,—um pouco mais singular ainda do que o agouro!