Na vida aventureira dos mares têem sido sempre triviaes estes medos que vem das tradições e das prophecias. Deixam ás vezes de ser tolice, para ser apenas o terror sublime que se apossa dos espiritos mais elevados e mais nobres. Teve-os Moysés no cimo do monte quando avistou na baixa do valle os hebreus revoltosos, já com saudades da escravidão e das cebolas: e desanimou e julgou estar doido, e o certo é que avistou a terra da promissão, mas não conseguiu pôr lá o pé—e morreu á beira da realisação da sua idéa...[{132}]

A illustração dos officiaes de marinha de hoje já quasi não admitte os agouros, mas entre a maruja ha ainda alguns. Padre a bordo, quando não é capellão do navio, annuncia refrega dura, viagem contrariada.—Mulato a bordo, é salceirada frequente, e por vezes—na linguagem maritima—vento de gaveas nos terceiros e de traquete na passadeira.—Cadaver ao mar, predispõe para tareia e tem de se aguardar vigilante o salto do vento para evitar o empandeiramento do velame.

Ás vezes veem como que disfarçadas, as predicções, nos brinquedos das creanças. Em os pequenos figurando batalhas na rua, em elles[{133}] armando barretinas, arranjando bandeirolas, e travando combates, é signal de reboliço, signal de guerra. De outras vezes, se fingem conduzir um saimento, morre dentro em pouco alguem no sitio... É certo? Não é? Como quizerem. Os agouros, para mim, são o tinha de ser: consolação—de quem não tem outra!...[{134}]

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VIII

Feitiços

Feitiço é o sortilegio, a fascinação, o olhado. É-se victima de qualquer mal, e soffrem-se as consequencias ignorando as causas—sem outra culpa ás vezes senão a de desejar muito, muito, alguma coisa. Espera-se um bem:—falta, porque se aspirou a elle; receia-se[{136}] semsaboria: ella que chega porque a attrahimos. O pulsar inquieto e ancioso do coração é uma especie de bulha de passos que faz com que fuja a creatura ou a coisa a que se quer bem. Dá a sorte pão duro a quem tem sede, e agua a quem tem fome; vivem na abundancia os que estão fartos, e quem for só rico de appetite—pede esmola. Vae a saraiva embirrar com as seáras que o sol tisnou, e derrete-se a neve dos montes por cima dos valles que a chuva innundou já... Feitiços! O ir boiando contra a maré pelo rio do tempo adiante. A Psyche queria tornar a ver o amante, e ao inclinar da lampada, o amante acordou e fugiu...[{137}] Voltou-se Orpheu para ver Eurydice, e a adorada creatura caiu logo outra vez no inferno. O feitiço é um demonio pequeno com um grande archote nas mãos, levantando-o entre as pessoas e o objecto que as seduz: dá-lhes claridade, dá-lhes fulgor, e, á proporção que se está mais perto, principia o demonio a pernear, salta d'aqui, salta d'ali, dando luz a outros objectos que estejam mais distantes, e tornando em sombra o que tinha sido, havia momentos, uma apparição scintillante! A imaginação popular precisa de casos extraordinarios para se entreter, e não gosta senão do que fôr maravilha, do que estiver superior á[{138}] humanidade, do que ella não entender... Não se vê na Iliada andarem sempre os deuses a fazer costas aos heroes? Assim é na vida. Tem cada qual um auxilio sobrenatural a que recorre. Um uma estrella, outro um oraculo;—este as romagens á senhora do Cabo, da Nazareth, da Bonança, de Porto Salvo ou da Guia: mas a uma d'ellas de sua feição, e não a outra, porque o que acredita na Senhora da Guia, não dá nada pela do Cabo; aquelle, em perdendo coisa, não ha fazer com que a procure sem resar um responso a Santo Antonio;—o outro tem scisma com o passar de noite defronte de um espelho, por ser possivel ver-se morto,[{139}] ou ver outra imagem em vez da sua...

Apesar de mil precauções, quando as pessoas menos o cuidam lá está alguem na sombra, perdido, ignorado, a dar-lhes feitiço, ou a deitar-lhes uma sorte. Ninguem o vê; ninguem o ouve; e o feitiço lá vae saindo das resas, dos ensalmos, das pragas, das orações, do esconjuro...

Alguidar, alguidar
Que foste feito ao luar,
Debaixo das sete estrellas,
Com cuspinhos de donzellas
Te mandei eu amassar...

As fadas, outr'ora, presidiam a isto. Havia a fada do bem, e a do[{140}] mal, que eram madrinhas. Vinham uns ao mundo para as venturas, para a desgraça outros, conforme o querer do ceu ou da natureza. Mas as fadas nos ultimos tempos foram deitando, como se lá diz, os bracinhos de fóra, e andavam de mais por este mundo. É bom ter fadas, mas com moderação;—e era isso o que ellas não queriam perceber, assolando o paiz a ponto de levarem a camara municipal, que nunca teve o sentimento da poesia tão desenvolvido como podia ser, a prohibir n'uma postura de 1385 que se usassem em Lisboa nem em seu termo—«obra de feitiços, nem de ligamento, nem de descantações, nem de viadeira,[{141}] nem de carantulas, nem outrosim medir cinta, nem cantar janeiras, nem maias, nem lançar cal ás portas, nem furtar aguas, nem lançar sortes.»