Principiou depois a fazer-se depender tudo da hora e da lua. Veio a mania de que os astros tinham grande influencia nas acções, idéas, ou inclinações humanas. Ha negociantes que importam annualmente, a titulo de fazer folhinhas de porta e de algibeira, uma carregação de petas que offerecem á gente como chegadas directamente dos planetas. Que em tal mez ha de morrer um grande personagem:—sempre morre, e seria um transtorno se assim não succedesse,[{142}] n'uma terra como esta em que se aponta a dedo quem não é conselheiro!—que no mez de tal ha de correr uma noticia falsa: que no mez d'isto hão de nascer muitas creanças, no mez d'aquillo haverá questões com o papa: no mez d'aquell'outro se fará um emprestimo: em tal planeta entrando em tal signo cairá o ministerio, ou se dissolverá a camara. Prophecias certissimas! Feitiços irremediaveis! Foram-se as fadas, vieram os almanaks!...
Ao que os medicos ás vezes chamam «nervoso» chama o povo feitiços. Mulher pallida, franzininha, com ares de musa da melancholia, dada a doença que ninguem entende,[{143}] chorando e rindo ao acaso, torcendo os dedos por qualquer coisa, quebrando o leque, rasgando por gosto, moendo e ralando as pessoas de quem mais gostar,—tem feitiço. As artistas, ou porque a incerteza da vida de theatro as leve a isso, ou porque a arte as influenceie, teem phantasias inacreditaveis. A sr.ª Emilia das Neves, pontualissima aliaz em ir aos ensaios,—ensaia todavia os papeis em casa mais do que no tablado; é entre as quatro paredes da sua sala que ella calcula os effeitos, ajusta os sons, os gestos, os delirios e as quedas. Antes do Gladiador de Ravenna se representar, já as criadas da famosa actriz—por[{144}] espreitar ás portas e escutar—sabiam de cór o papel de Tusnelda. A sala é a grande preparação;—o tablado é o dever; a sala é o feitiço. Depois nos bastidores, antes de entrarem em scena, cada artista tem a sua invocação: uns benzem-se simplesmente, outros affagam um coral torcido, outros tomam a figa de um breloque, para evitar o quebranto.
Os feitiços ás vezes são brincalhões. Ahi está o nosso Isidoro, de quem fallamos por occasião dos «Agouros», que tambem é mimoso dos feitiços. Abriu os olhos ao mundo na travessa da Pereira, que tem no topo o Cardal da Graça, á direita o sitio chamado a Gloria,[{145}] e á esquerda a rua do Paraiso!...
Conhecem o Matta? Quem ha que o não conheça! O Matta cosinheiro, o Matta pastelleiro, o Matta artista,—o Matta do Chiado emfim, como lhe chamam. Elle tem um avental branco. Para elle, o avental branco é tudo. Não sei que lhes faça. Quizera explicár-lhes isto de maneira que me entendessem bem; assim como não ha nada que nos faça admirar dos tolos como ser incomprehensivel, assim a clareza é tudo para pessoas de juizo; e eu sei a quem me dirijo. Vamos.—Vamos ao caso: Tem o Matta um avental branco. Quem uma vez na vida pelo menos não frigiu uns[{146}] ovos, não fez um biffe, ou não assou um coelho, não sabe dar valor a isto. Ha muito quem conheça os melhores tratados a respeito da arte alimenticia, e que seja incapaz de uma inspiração de espeto ou de caçarola—por nunca haver posto o avental branco. Com elle é que o Matta se tem achado no meio dos perigos do seu destino e das alternativas a que estão sujeitos seus frageis dias,—os vapores que o carvão exhala e que lhe vão minando a saude, comquanto vigorosa: a labareda e o fumo de tão perniciosos resultados para os pulmões e para a vista. E elle sempre alli como o soldado entre as balas,—com a differença de[{147}] que para elle todos os dias que Deus dá são de combate, e combate que não dá postos nem condecorações! E dirige e tempéra, e tira e põe,—mas de avental; mesmo que não se trate senão de dar a voz de commando,—de avental sempre: aliás, tudo se perde, entra na comida o bispo,—unico que não tem nem terá partido,—agúa-se o môlho, ou estraga-se a geléa, a geléa que elle por assim dizer reformou, essa querida geléa que data do paraiso,—porque a serpente não seduziu Eva com uma maçã, como se espalhou; ainda não havia maçãs: a maçã é muito mais moderna; seduziu-a com geléa: geléa que se apanhava da rezina[{148}] das arvores. E não lhe fallem de tirar o avental, em se tratando de jantar grande,—porque o não tira; é ao avental branco que elle deve tudo; o avental branco é o seu pae, é o seu feitiço!...
Ha aguas beneficas, aguas que dão virtude, e outras que transformam a gente, como a que a Sabia dá ao marido curioso, no auto da Ciosa, de Antonio Prestes, para que a esposa o confunda com o primeiro namorado que teve e possa ver como ella o recebe: «Toma esta agua e o que vae n'ella
lava teu rosto com ella,
tornar-te-has na compostura
e fegura
do que se foi.»[{149}]
No mar tambem ha feitiços, e é por causa d'elles que se parte a verga da gavia, se rende o mastareu do velacho, se perdem as vergas da gata e secca, encalha o navio ou tem de voltar para traz.
Dizem que ha sitios no mar,—o cabo da Boa Esperança, por exemplo,—em que, ás vezes, se ouvem vozes de som espantoso, palavras inteiras, de feitiço; e que o pio de certas aves que passam de noite no mar alto é o gemido das almas dos capitães de navios que se perderam ali e andam a cumprir fado até que as aguas lhe levem o corpo á terra e encontrem emfim sepultura.
Os feitiços no mar representam[{150}] a attracção do elemento, o magnetismo da natureza, a perfidia e avidez da agua insaciavel. Têem caprichos perigosos. Em estando alguem para se afogar já na vespera se põem a dançar por cima das ondas. Adivinham o navio que ha de naufragar, e mal vae ao piloto em os feitiços dando no barco.
Até se conta que D. Sebastião está ainda hoje a dormir no fundo do mar, por lhe haverem dado feitiço; que as proas dos navios que vão passando lhe quebram de tempos a tempos um pedaço do tecto do palacio em que elle está guardado; que acorda n'essas occasiões, estende os braços, quer chamar, mas lhe tapam a boca para[{151}] que não grite, e elle adormece outra vez...
As vozes do povo são, n'estas crendices, o grande oraculo. No Porto vae-se á capella da Senhora da Verdade, por traz da Sé, pede-se que faça ouvir nas vozes do povo o que se quer saber, e á volta, de ouvido á escuta, repara-se se diz sim ou não quem vae passando.—Em Lisboa, pelas festas de junho, põe-se a herva pinheira á meia noite ao relento na esperança de se conservar verde e crescer. Mal vae desde logo, se ella deita espiga.—Queimam-se cinco réis na fogueira, dão-se depois de esmola a um pobre e pergunta-se-lhe o nome: hade chamar-se o marido[{152}] como se chama o homem da esmolinha. Da alcachofra, dos bochechos, do ovo no copo d'agua, é quasi inutil fallar-lhes.—Quem tiver sete filhos está em mau caso: ou o ultimo se ha de chamar Mauricio, e um irmão ser padrinho,—ou nascerá defeituoso.—Enrolam-se tres papelinhos, com seu nome cada um, bem enrolados, e enrolados bem irmãos; deita-se um á rua: outro para traz da porta: debaixo do travesseiro o outro. Este é que ha de ser o nome do noivo. Extrae-se toda a casca a uma fava,—metade da casca a outra, e junta-se ás duas uma fava com casca; mettem-se as tres entre os colxões. De manhã, tira-se uma; se[{153}] traz casca, vem vestida e a pessoa virá a ser rica: se não traz, é nua e a pessoa vem a ser pobre; se traz metade da casca, a pessoa será remediada...