Ou nas ancas ou na sella
Onde fôr mais honra minha.
Ella trepa. Partem. Vão seguindo. E lá pela estrada adiante, ella larga a rir, a rir...—Estava a zombar d'elle. Era tão encantada como eu!...
No paiz do peixe e das perolas, do coral e das alforrecas,—no mar—ha-as tambem, e dizem que em maior numero hoje do que em terra. É o reviver das divindades humidas da fabula; successoras das naiades e das nereidas, que o christianismo enxugou com o exorcismo; menos bonitas, provavelmente, do que as sereias pagãs, que encantavam[{160}] Ulysses com o soltarem a voz deliciosa, e o faziam torcer-se todo, preso ao mastro do navio; mas descendentes, mas netas d'ellas,—e, o que é mais, mulheres como as outras, dos bicos dos pés á cabeça! Conta-se o caso de não sei que moço, que deixou uma d'ellas para ir casar com a filha de um capitão mór de aldeia; durante o jantar das bodas, o noivo ergueu casualmente o olhar e viu um pésinho alvejante e nu a sair do tecto;—affirmou-se, conheceu que era o pé da sua encantada, aquelle bonito pé que elle beijára tantas vezes, e entendeu logo de si para si o que queria dizer um signal d'aquelles. Mandou chamar[{161}] um padre, confessou-se, pediu os Sacramentos, e dispoz-se a bem morrer. Á meia noite expirou, depois de recommendar muito que o enterrassem em certo sitio...
Ha quem diga que são mais bonitas do que as fadas, e querem outros que sejam feias de metter medo. Fazem-se-lhes os dentes verdes e os olhos ficam parecendo olhos de peixe. Não deixa de haver harmonia n'estas opiniões desencontradas; porque, variavel como a onda que a encobre, a encantada no mar deve ora ser horrivel como a vaga furiosa, ora fresca e pura como a agua transparente. Refere-se que em tempos iam todas as manhãsinhas á praça[{162}] fazer compras; eram conhecidas por terem sempre molhada a orla do vestido. Eram mulheres pallidas quasi sempre, que andavam de olhos no chão sem dar palavra a ninguem. Pagavam tudo com moedas de dez réis furadas. Em Peniche trata-se ainda d'ellas como de coisa certa. Mostra-se perto das Berlengas o sitio em que fallou uma; appareceu, ao sair do luar, com um espelho na mão, e gritou aos marujos que não tivessem medo porque estavam perto de terra: mas em elles lhe vendo a cara não tornavam a ver terra nunca mais e o caso foi que ali se perderam todos n'essa noite...
Teem genio proprio do elemento[{163}] em que vivem; graciosas e crueis; amantes e perfidas; gostando de levar os homens para debaixo de agua, o que tambem era a balda das nymphas. Quando os affogam já ouvi dizer que não é por mal; até ás vezes se apaixonam por elles, e lá acham maneira de os consolar por esses mares de Christo da travessura de lhes roubar a existencia humana.
Não podem ficar em terra além da hora marcada, e os amores que por cá têem acabam sempre mal. Ainda ha no Baleal a tradição de um rapaz padeiro que morreu doido por causa de encantamentos, e de encantadas,—que ora lhe appareciam á borda dos regatos a[{164}] pentear os cabellos de oiro, ora á tona d'agua nos poços, ora nas ondas do mar; até que, uma occasião em que elle estava dormindo encostado a um muro, se lhe enroscou ao corpo uma que andava em figura de cobra...
Por duas ou tres vezes na Nazareth uns pescadores as apanharam ao colher da rede e fizeram a diligencia de ver se ellas fallavam:—mas conservaram-se sempre tristes e caladas, sem quererem comer nem beber, e, tão depressa puderam, fugiram outra vez para a agua... Tudo isso já lá vae. Hoje, as banhistas fazem-lhes concorrencia. A Deuza dos Mares, a Flor de Lisboa, e os vapores do[{165}] sr. Burnay, assustaram-as. Deixaram de vir ter comnosco. D'aquelle serralho liquido já não saem cá para cima senão os mudos,... que são os peixes!...
De que provém, o encanto das mulheres? Não ha sabel-o. Até a formosura poucas vezes lhe vale. As bonitas, bonitas, têem muito quem as gabe e pouco quem se apaixone por ellas. Os defeitos ás vezes são o grande segredo do seu poder,—porque a graça precisa de ser picante. É como com as flores; roseira que não tenha espinhos ha só a do Japão; dá rosas bonitas,—mas sem cheiro! O encanto nos tempos de hoje está onde a gente o põe—n'uma creatura,[{166}] n'uma vaidade, n'uma paixão, n'uma mania. Para uns é a mulher; para outros é o dote. Para alguns, uma particularidade qualquer; uma imagem emblematica, uma palavra ás vezes—como succede com os titulos dos reis, cada um de seu primor especial; em Hespanha «magestade catholica», em Portugal «fidelissima» na Monomotapa «senhor do sol e da lua»!... Ha um supremo encanto que transforma tudo; vence, derruba, consegue; mas n'esse quasi ninguem faz reparo:—a vontade.
Heroismos, casos de romance, aventuras phantasticas—tem ella o encanto de realisar tudo isso. Um homem de perto de Barcellos, chamado[{167}] Manuel Corrêa, que em 1838 viveu no Rio de Janeiro, guiou sósinho um navio, que a tripulação abandonára, no meio da tormenta navegando sete dias até fundear no porto de Santos!
O encanto toma differentes fórmas e esconde-se ás vezes nos objectos de apparencia inanimada,—nas bengallas e nos chapeus de chuva por exemplo: trastes perfidos e caçoistas... Em estando para chover já a bengalla o adivinha com o seu instincto nativo de marmeleiro, e vem offerecer-se muito lampeira á hesitação em que uma pessoa está:—depois, em se apanhando fóra de penates, se desaba a cair chuva e o sujeito fica encharcado[{168}] põe-se a bengalla lustrosa de agua a rir, a rir... Pelo contrario, em o sol estando com tenções de tirar d'ali a nada a caraça de nuvens e brilhar senhor do firmamento azul, o chapeu de chuva dá logo por isso, pressente-o em cada fio da seda, trepa-se no dono antes de elle ter tempo de consultar os ares, e ahi sae para a rua—não chovendo, e ficando o pobre homem condemnado a andar com elle todo o dia debaixo do braço. Ha encanto! ha encanto na bengalla e no chapeu de chuva; representam a vida debaixo dos seus principaes aspectos,—a borrasca e a bonança, a tormenta e a calmaria! O chapeu de chuva ergue-se para o ceu,[{169}] e a bengalla volta-se para o chão; elle levanta-se, e ella curva-se: elle desabrocha nas nuvens e defende-nos do que vem de cima, ella serve para os casos terrestres e para nos defender o lombo do que vae cá por baixo!