O encanto principia a ter poder n'uma pessoa antes mesmo d'ella nascer. Chorar na barriga da mãe é annuncio de que se ha de ser feliz n'este mundo—Mas, se a mãe, em conversa, contar a alguem que o filho lhe chorou no ventre, corta-lhe a sorte, e nasce anão ou gigante. Qualquer das coisas não é boa. Os gigantes em Portugal saem sempre inferiores—haja vista aquelle do Minho, que esteve ha[{170}] annos em exposição na rua Nova do Carmo, espantalho enorme para qualquer profissão, mas um tanto chôcho para gigante. Depois a vida que levam é de mau fadario; nem namorar podem, por não haver donzellas que se exponham a affrontar seu desmesurado affecto, e por ser necessaria uma escada de mão para se lhes fazer festas na cara!

Ser anão tem mais vantagem, cabem em qualquer buraco, vestem-se com um metro de fazenda, e quando morrem basta-lhes um caixão pequenino; mas não se póde dizer que seja muito bonito, e é arriscado a desordens, porque ás vezes, mesmo sem querer, lá dão[{171}] uma cabeçada nos callos de quem vae passando...

Em as meninas tendo comichão no nariz é aviso de que n'esse dia um rapaz lhes ha de dar um beijo;—em lhes comendo a palma da mão, já a gente sabe que está para receber dinheiro, mas é preciso não coçar e fechal-a logo;—a orelha direita quente, estão a dizer bem de nós: quente a esquerda, alguem nos corta na pelle.—Na madrugada de S. João quem fôr lavar a cara á fonte, fica bonito:—e quem nadar n'essa noite alcança o que quizer, levado na onda que dá fortuna e indo ao porto onde os amores sorriem...

Os dois encantos negros são as[{172}] almas penadas e os lobis-homens. A preta Domingas, que vendia fava rica, enviuvára; ao lado da sua casa morava um sapateiro, menos barbudo que Merlim mas da força d'elle em malandrinices. Alta noite o sapateiro trepava-se-lhe á chaminé e gemia lamentosamente:

Eu caio! A minh'alma anda pinando as penas di purgatorio. Sou o teu difunto marido, i peno por ter ficado a diver uma moeda ao vijinho sapateio...

—Pois não ha de pinar por isso a tu'alma, pae Faxico! respondeu a preta. Eu lhi pagaré, ao vijinho sapateio!

E pagou. E o sapateiro foi arrecadando[{173}] a moeda, dizendo com modestia que não era pressa. E d'ali em diante era certa a lamuria, pela noite velha, ora por dividas de jogo, ora de marufo, e a Domingas ia pagando até que uma vez se cançou do encanto e lhe redarguiu:

—Qui a tu'alma vá p'ra o ceu, qui a tu'alma vá p'rá inferno, eu já não dou mais rial ao vijinho sapateio!

E o caso foi que desde então a alma do sapateiro é que principiou a penar deveras e tambem o seu corpo, porque a preta cumpriu o que disse e nunca mais lhe deu vintem.

As almas penadas são d'esta qualidade;[{174}] e tambem defuntos, que por lhes faltar alguem á palavra dada—vagam n'este mundo, até que lhes satisfaçam as ultimas vontades.