Lobis-homens são pessoas que andam a cumprir sina, a cumprir um fadario, mudados em animaes; em lobo, em cão, em gato, em burro... Tão depressa apanham encruzilhada onde se tenha espojado animal, despem-se logo, mudam-se n'elle, e espojam-se tambem. Isto é,—espojavam-se. Isso não continua, e até já ouvi dizer que succede agora ao contrario, para variar, e que tem por ahi apparecido seu burro—mudado em homem.[{175}]
X
Sonhos
Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar talvez a monotonia da agua dormente—mare mortuum! Querem casos, avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis nem faziveis...[{176}] A antiguidade espantava-se com o assoviar das serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisação e o progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, desgosto e feridas: com dados, perder os bens: com espelho, traição: com favas, doença: com herança, miseria: com padre, morte!
Alguns, não sei porque,—pode ser que por fazerem o mesmo acordados—sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, que fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo[{177}] mudado; fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a alegria aeria, crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que torce sempre o nariz—limite de seu horisonte—a tudo que vae pelo mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o Apollo de Belvedere é piteireiro: a Venus de Milo assa castanhas, Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de capa de asperges!...
Porque será que se sonha?! Chega[{178}] a parecer que a alma não está nas pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz suspensos da mão de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem com mais facilidade, outros com menos á direcção que lhes é dada,—obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é não querer ir para onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar o fio o deixe bambo:—qualquer brisa do ceu n'essa occasião faz fluctuar e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não conhecemos, trazendo-nos idéas e imagens[{179}] que não têem parentesco com as imagens e as idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!
Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.—Que a ultima coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.—Outros affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle não vem, e certo está em o evitando;—principios um pouco alheios aos do Evangelho, e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não batas e abrir-te-hão!
A maneira de dormir deve ter[{180}] n'isto influencia. Cama desengonçada e velha, que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de fendas; por cima da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, de bruços... Como ha de ter sonhos felizes e côr de rosa um estafermo n'essas condições?
As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos sonhos porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com[{181}] casamento.—E crê-se entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem attribuir-lhes a fortuna:—os que costumam ser desgraçados, já se vê, que os felizes não tenham medo que a attribuam nunca senão aos seus merecimentos!—E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos; e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de visões, ora de insomnias:—e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter pulgas no quarto!
Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam,[{182}] e apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão para saguão,—com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a loucura!