É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, merencorio e fusco, gatos pingados por natureza! Os que não teem desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos livres. A falta de tormentos,—os sonhos. Em não havendo causas grandes, as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco de arvore, escorrega n'uma casca de[{183}] laranja,—e vae de ventas ao chão do mesmo modo.
—Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!
—Ai! Com cominhos!
—São pragas! É praga que me rogaram.
—Credo! É facil ser!
E dá-se credito.
Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril de polvora sem pegar fogo—estou que não acreditam ao ponto de se deixarem ficar para assistir ao caso,—mas que sonhar com uma concha seja signal de perder o credito, com um copo de agua de prompto matrimonio, com damascos de grande alegria, com[{184}] guitarra prazeres dispendiosos, e com papagaio descoberta de um segredo, quem se atreverá a pôl-o em duvida?!
Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,—por tal fórma os males imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles—como succedeu ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a conseguil-o:[{185}]
«Gloriosa Santa Helena
Filha da rainha Irena
Moira foste, christã vos tornaste.
Nas ondas do mar andaste,
Com as onze mil virgens vos encontraste.
Com ellas pão e queijo ceaste.
Ao crucifixo vos encostaste
Tres cravos que tinha lhe tiraste.O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:—se assim não é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras e aguas turvas, Amen.»
Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a rara avis[{186}] dos dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo seu pé. Muita gente tem medo d'elles;—principalmente desde o caso de Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha—foi atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã lavar a loiça;—estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa limpou-os todos, depois engraixou[{187}] as botas do marido, e foi deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o gallego.