Taes são as sinas, e muito mais ainda; centos de coisas;—tudo. Apparecem, por via de regra, em a gente as procurando: vêem do que nos succeder depois de nascer...[{197}] ou antes. A mão o dirá. Na mão ha muito. A mão diz tudo. Tudo se encontra e reconhece n'ella,—e já se vê que é d'ahi que provém dizer-se ás vezes:
—Disponha de mim, até onde estiver na minha mão!
Ou:
Peço-lhe isto, por ser coisa que está na sua mão!
Procurêmos por exemplo os peccados mortaes:
Soberba, dedos compridos, seccos, aguçados;—avareza, mão dura e encarquilhada;—luxuria, mãos curtas, gordas, lisas, moles, dedos largos na base;—ira, mão esverdeada e aspera, de unha curta;—inveja, mãos compridas e ossudas;—preguiça,[{198}] mão branda e macia:
Ter bem claro o M da palma da mão é signal de existencia quieta; as linhas confusas e emmaranhadas indicam vida agitada e tortuosa. A mão direita para isto é melhor do que a esquerda, dizem os peritos; se é que isto não é mais uma velhacada das muitas da mão direita, que anda sempre a chamar as attenções e a armar intrigas para pôr na sombra a irmã, que logo pelo nome principia a perder, coitada, a pobre mão esquerda!
A mania de explicar a sorte pela influencia dos signos, essa podia ter poesia se fosse dita e sentida[{199}] de outra fórma. Comprehende-se que quem estiver cançado do mundo se refugie nos ceus, com as inquietações que o devoram, a querer ler no firmamento. O astro de Saturno por exemplo tem o que quer que seja de curioso na aureola que o cerca sem lhe tocar, diadema que não se lhe segura na fronte; ha n'isso alguma coisa parecida com a esperança, nimbo de luz que brilha no escuro das magoas, corôa e prisma que nos resplende por cima da cabeça e afasta os raios em vez de os attrair. Os astronomos dizem que aquelle annel não passa de ser mais um satelite—e a esperança é um dos nossos tambem, nuvem de guarda[{200}] que nos vae consolando com as visões...
A sina é o invencivel, o que está marcado, o que não póde deixar de cumprir-se,—apesar, dizem, de todo o empenho em lhe fugir. Porque se gosta tanto ás vezes de certas mulheres que não são formosas? Porque motivo se deixam em paz as completamente e perfeitamente bonitas, para ir ter paixões devastadoras por uma creatura a quem se reconhecem os defeitos, a quem em certa maneira chega a odiar-se dentro do amor que se lhe tem?!
É a sina, e em tudo é o mesmo: não têem visto ramitos novos a brincarem no tronco centenario[{201}] dos chorões, e a era a abraçar-se aos muros negros e rachados? Não dizem que as abelhas do Oriente gostam de ir fazer o mel nas ossadas dos animaes mortos? Não se vê os passaros armarem o ninho no colmo das choupanas desertas? É a sina da naturesa material, que tem sina tambem como a natureza intelligente!