Uma formosa que o mundo admira, que se preoccupa de ser bella e de continuar a sel-o, horrorisa-se com a idéa de ter bexigas. A sabedoria das nações diz-lhe que é bom dar duas vezes o braço á lanceta, por mais bonito que o braço seja; que não basta a vaccina da infancia; que é util entregar-se,[{202}] termo medio, de sete em sete annos áquella operação. Ella consente, e vaccina-se. Espera oito dias como a irmã Anna—sem ver apparecer nada: a vaccina não pegou; tentativa abortada; ahi tem de voltar á obra porque adiante de tudo está a formosura. Segunda representação de vaccina:—trinta segundos; depois, já se vê, da meia hora de preliminares: a paciencia é um facto; ha uma dôrsinha, ha tres borbulhinhas vermelhas, sobresaindo na alvura da pelle immaculada, ha febre, ha tudo: d'esta vez pegou; está segura a formosura. D'alli a dois annos tem bexigas. Diz o povo:
—Era a sua sina![{203}]
As trovas dizem-a ás vezes; concertos na eira á desgarrada, cantigas do fado á guitarra; e no mar principalmente, onde os descantes são quasi sempre fatidicos; lá se diz na Chronica de D. Sebastião por Fr. Bernardo da Cruz que na expedição de Africa um tal musico chamado Madeira foi pelo mar cantando á viola a el-rei um romance que dizia: «Hontem eras rei e hoje nem casa tens», trova em que vinha saindo a sina, e que fez tal impressão nos animos que logo se lhe disse que mudasse para outra mais alegre.
Ninguem lhe escapa; dizem que não ha fugir-lhe—nem pessoa nem bicho, porque até os animaes teem[{204}] a sua sorte escripta:—a sina do porco, por exemplo, é ser comido! Ser comido, haja o que houver; não serve para mais nada; o boi é para a lavoura, o cavallo para a guerra, as aves para o ar: o porco é para a pucilga; as aves são poeticas, o boi é laborioso, o cavallo é nobre, o porco é feio, immundo, e sem prestimo se não para o espeto e para a salga. Ser comido, ser comido; é a sina d'elle!
Que se torça o caminho, que se evite o atalho, que se fuja á estrada, não ha outra saida, dizem, senão ir cada um para a sua sorte. Póde zombar, póde não crer;—a sua sina lá está, ironica ás vezes, maliciosa, cassoista. Um moço[{205}] elegante e pallido que durante um tempo foi grandemente amado como se lá diz á direita e á esquerda, fez um dia a côrte a uma senhora casada. O marido tinha as maiores mãos de que ha memoria; grandes, gordas, inchadas, vermelhas;—o mancebo detestava as mãos d'elle, e queixava-se sempre de que a sorte houvesse consentido que tão peregrina creaturinha pertencesse a um lapuz com taes mãos. A poder de esforços conseguiu de uma occasião que ella o deixasse ir fallar-lhe tres minutos, tres minutinhos. Estava elle no corredor protestando sua respeitosa adoração, quando se ouviu bater á porta. O susto traz[{206}] complicações medonhas, e a senhora por não saber o que fizesse—deixou-o esconder debaixo de um sophá! Entrou o nosso homem das mãos grandes, conversou, pegou n'um jornal, estirou-se no sophá, e poz-se a ler. O outro, contrafeito, esticado n'um collete comprido e n'uma calça justa á perna, precisou no fim de tempo mudar de attitude, e fez alguma bulha. O das mãos grandes, sempre lendo, disse:
—Que é isto? É o cão que está ahi debaixo? Anda cá, tó, tó, anda cá tollo...
E deitou o braço de fora deixando pender a mão, a mão enorme, vermelha...
O outro lembrou-se que qualquer[{207}] suspeita n'aquellas alturas podia perdel-o; e de mansinho, de mansinho, lambeu-lhe a mão; aquella mão phenomenal de que elle tanto se rira sempre!...
Ainda se a sina fosse sempre brincalhona! Mas é cruel, mas é fatal, ás vezes. Abre feridas que nem fecham, nem saram. Quando na primavera da vida o amor surprehende um homem e o prega na parede como se fôra uma borboleta, está feita a sina. A liberdade chegue quando chegar, virá sempre tarde. Os poetas podem ver n'elle Prometheo no Caucaso; mas é isto, simplesmente isto—uma borboleta pregada, a querer fugir, a querer dar ás azas sem poder—porque,[{208}] de cada vez que as quer librar, alarga ainda mais a ferida e não lhe serve de nada!
A sina annuncia-se tambem no canto de certas aves, que atiram aos ares a buena-dicha. Os rapazes do campo quando andam de povo em povo a assistir ás festas do logar e á feira na intenção de verem as moças e escolherem noiva se as do seu sitio lhes não agradam, mudam de idéa e de rumo se acaso ouvem pelo caminho o canto melancholico d'aquelle mensageiro da primavera que annuncia as folhas—e dizem que annuncia tambem outras coisas,—canto um pouco extravagante, canto de duas notas, o canto do cuco![{209}]