Contou-me este caso um rapaz de Goes, que o affiança tanto ou mais que a si proprio; affirmou-me elle que em uma pessoa sonhando que as bruxas lhe estão chupando o sangue—accorda de nodoas no corpo; e assegurou-me que a boa bruxa é a de nascença, e não a que aprende.
Ora as mulheres de virtude são bruxas que aprendem. Vae aquella arte de mãe para filha. D'isso vivem, d'isso comem e bebem, d'isso compram ás vezes papeis de credito. Não teem só virtude, teem talento, teem saber: até se lhes chama sabias. A humanidade tem-se gosado sempre de possuir seres privilegiados para a instruirem, quer[{243}] queira, quer não; a sibylla de Gumas, Orpheo, Apolonio; sem fallarmos no Lavater que lia na cara do sujeito, ou no Gall, capaz de cortar o cabello á escovinha ao genero humano para lhe apalpar melhor as bossas. De tudo isto a mulher de virtude é o que tem havido melhor!
Em ellas estendendo as cartas, parece que se abre a terra. Dilata-se-lhes a palpebra, despedem dois raios de fogo de queimar tudo, dão á cabeça, batem o pé no chão, guincham, resam, praguejam, misturam nomes de santos e nomes de bichos, benzem-se, maldizem-se, riem e choram... A pessoa que as consulta, senhora quasi sempre, estremece[{244}] com aquelle olhar de fascinação, com aquellas palavras de sortilegio... Os bonecos das cartas apertam-na, angustiam-na como se fossem animados; ou então, ao envez, parece zombarem do que se passa e é como se a dama piscasse o olho, o rei deitasse a lingua de fóra, o az de espadas tivesse olhos, nariz e bôca. A bruxa, fumegante de suor, ora tem como que arrepios na espinha, ora tem extasis; anima-se, geme, grita de contente, hurra, arrepela-se, esperneia á proporção que saem as cartas... E como se o espirito da verdade fallando pela boca d'ella estivesse a patentear o quadro das vicissitudes da vida intima, apalpando[{245}] o presente, avistando o futuro... O valete de ouros é o amante, o cinco de copas são lagrimas, o az de paus fandangos (amores), sete d'espadas desgosto formal, az de ouros prenda, tres de copas com certeza, dois de paus a caminho, quatro de paus prisão, e a espadilha affirma!
É um horror. Não é uma tolice, não é um disparate, não é uma estupidez—é um horror. E a desgraça de familias, a guerra na vida de casados, o mal estar permanente, a calumnia, o roubo, a infamia. Um horror!
Vae esta gente procurar torturas áquellas casas que vendem a inquietação, a angustia, as noites raladas[{246}] de ciume, de despeito e de odio; casas sinistras em que se respira a fatalidade em tudo—na mobilia que se compõe de uma bilha quebrada e de uma cadeira côxa, nas rodilhas que supprem os vidros das janellas, nas paredes a cair, no fogareiro ao meio da casa com uns carvõesitos quasi afogados na cinza, no galo grande que canta como o diabo, no pucaro com bagos de café e clara d'ovo, no sacco dos bruxedos com pedra d'era e coke, na cruz de alecrim, no espelho, na thesoura, aberta em cruz em cima do sal, no palavrorio de resa que precede o botar a falla:—Credo—cruzes—canhoto—temos bruxaria—saramago—mostarda—alho[{247}] e arruda—maravalhas e palhas de alhos!
Tudo isto faria rir se não fosse funesto, e não tivesse tanta influencia na gente portugueza, dada a melancholias sem razão, melancholias do acaso, saboreando tudo que é chocho e amargo. Fizeram-nos falta os conventos, casas por excellencia para a indole sombria que temos. Todas essas allucinações de que lhes tenho fallado, telha, enguiços, encantos, agouros, feitiços, sonhos, sinas, coisa má, provêem da falta de educação. Ou se tem fé em Deus, ou nas mulheres de virtude. Quem duvida está ás escuras; o principio de ver é crer; crer no renascer das folhas; na[{248}] volta da quadra florida; crer que a dor não é sempre esteril, que ha affectos fieis, amores que duram, feridas que saram. A fé não é bem o dia, mas é o fim da noite; é a luz a chegar-se á alma. Toda a nossa mania e o nosso mal é não termos fé senão em duas coisas,—em enguiços e em economias! O mesmo deficit de que tanto por ahi se falla, é um enguiço publico, enguiço official! Assim somos. Enguiços e economias! Tristes e pobres;—duas vezes tristes!
FIM