De outras vezes, diverte-se com a humanidade; reserva os seus favores para a quadra em que já não ha cabello, ou tira-nos a alegria e a saude na vespera de nos dar a riqueza, como succedeu lá ao

Pero Pico
que viveu pouco e pobre
e finou rico!

As bruxarias são destinadas aos que não querem perceber que a[{233}] vida seja isto e porfiam em comprar a sorte a retalho, nas cartas e em philtros, ás mulheres de virtude. As mulheres de virtude são as chirogromanas, as chiromantes, as cartemantes de Portugal. As crendices populares dão-lhes grande fama e muita da nossa gente e da melhor as vae consultar a occultas. Especuladoras lepidas, vendem elixires para attrair o amor e artificios para encantar; e sabem das cartas tudo que vae pelo mundo.

Ainda não ha dois mezes, contavam os jornaes de Lisboa a prisão de duas mulheres de virtude, mãe e filha, apanhadas na occasião em que saiam de uma casa na rua dos Correeiros, onde[{234}] tinham ido exercer as ladras funcções da sua industria. Deitavam cartas, e revolviam as casas onde entravam. Haviam roubado quatrocentos e tantos mil réis, além de roupas a titulo de serem lavadas em agua benta. Vendiam frasquinhos com liquidos especiaes para conservar o amor, e ensinavam ás mulheres casadas que déssem d'isso aos maridos na comida para elles nunca se enfastiarem d'ellas. Benziam a casa com um ramo de alecrim molhado n'um cosimento de mostarda, saramago e alho. Quando as prendeu o policia, esse Antunes muito citado nos jornaes, as benzedeiras enfurecidas ameaçaram-o de lhe salgarem a porta á[{235}] meia noite de sexta feira em que fosse lua nova.

As senhoras portuguezas em geral são dadas a superstições; vivem condemnadas pela educação e pelos costumes do paiz á inacção, captivas no lar domestico, creadas na solidão—mais profunda sempre que a do homem, que se distrae alguma vez nos negocios e vae-vens da vida. Depois, e isto em qualquer paiz, a faculdade mais desenvolvida nas mulheres não costuma ser a logica; em desejando uma coisa, já lhes parece justa; em a receando, já se lhes figura provavel:—acreditam todas na fatalidade—e a fatalidade é a mãe da bruxaria.[{236}]

Por isso vão ás vezes, ás escondidas, lá a um beco escuro e immundo que lhes ensinou não se sabe quem, uma criada quasi sempre, trepar por uma escada que range e verga, bater a uma porta carunchosa e perguntar pela senhora fulana, a senhora dona fulana de mais a mais, um diabo de velha com bigodes, ou uma grande verruga no queixo, que traz para ali um pires com agua e a lamparina da noite com azeite, resa um credo em cruz em cima do pires que tem agua, e molha no azeite o dedo minimo da pessoa, dizendo tres vezes o nome d'ella e resando:[{237}]

Deus te fez,
Deus te creou,
Deus te desolhe
De quem mal te olhou.
Se é torto ou excommungado,
Deus te desolhe do seu mal olhado.

Depois, sempre em bichancros e tregeitos, olhando para a cliente,—fregueza, victima,—assustando-a com a vista, com os modos, vão resmungando de fórma que mal se perceba—«Sant'Anna teve a Virgem, a Virgem teve Jesus: assim como isto é verdade, Deus te desolhe do teu mal olhado!» Se o pingo do azeite fôr ao fundo, tem olhado; como não vae, não tem—e cumpre averiguar as coisas, deitar uma sorte, vencer obstaculos,[{238}] descobrir de onde vem o mal e acabar com elle;—quer dizer que cumpre principiar a mugir o caso e a roubar dinheiro á consultante. Precisam um dia de uma coisa, no outro dia de outra. Hoje um lençol, ámanhã um annel de ouro, depois um córte de seda preta para fazer um vestido e ir offerecer á egreja uma promessa...—Sei tudo isto por uma mulher que esteve como criada em casa de uma d'ellas.

Entremeiam aquellas exigencias com pedidos faceis, um lenço de assoar, vellas de cêra, e—como diz o povo—para compôr, um pouco de cabello. O cabello é o ponto romantico da gerigonsa. O cabello[{239}] dá amor, lembrança, consolação; o cabello dá força, o cabello ampara e vivifica. Havia um homem em Alcantara que morreu velhissimo, que levava sempre o amor conjugal a limites extremos—o que não o impediu de casar por duas vezes. Tinha o vicio das mulheres de virtude, e ellas aconselharam-lhe por tal fórma o ter cabello da pessoa amada que o homem resolveu—para conservar sempre fresca e amorosa a lembrança das duas mulheres que haviam feito a felicidade da sua existencia—aproveitar as tranças de cabellos que lhes tinha cortado piedosa e successivamente quando tivera a desgraça de as perder, e[{240}] mandar fazer daquillo um chinó. Cobria o topete com o cabello de ambas. Os cabellos não eram bem da mesma côr—mas isso não fazia nada ao caso e o ponto era não o abandonarem nunca, por aquella maneira, nem uma nem a outra. Era um chinó de virtude!...

Diz-se que as bruxas teem um signal no olho esquerdo,—mas que só dá por isso quem fôr muito experiente. Ha uma resa para as apanhar, e só podem soltar-se quando o que as prendeu desdisser a oração. Saem de noite correndo e saltando invisiveis por cima de arvores, sebes, e vallados, logo que digam a sua prece de segredo, que acaba por estas palavras: «Vôa,[{241}] vôa, por cima de toda a folha!» O marido de uma, que não sabia que a mulher era bruxa, notou que ella desapparecia alta noite, espreitou-a de uma vez, viu-a esfregar-se com umas ervas, ouviu-lhe a resa, e teve occasião de observar com que rapidez ella cortou logo o espaço por ares e ventos. Foi-se ás ervas, esfregou-se tambem, e começou de dizer a oração; mas enganou-se n'uma palavra, e em vez de «por cima de toda a folha!» disse:—«Vôa, vôa, por baixo de toda a folha!» Sentiu-se levado por força occulta, foi correndo tambem, correndo, mas a rasgar-se, por baixo das arvores e por baixo dos silvados...[{242}]