—Até anda de chale-manta![{228}]
—O quê?!
—Palavra de honra.
Se formos a observar, em quasi tudo conforme as épocas e as manias ha «coisa má»—e em tudo a «coisa má» póde ser evitada ou combatida. Já ouvi contar de um homem que para vencer os maleficios e armadilhas da sorte e por saber os perigos que resultam das cartas de amores—sempre que escrevia alguma punha-lhe a data do dia de entrudo, para que, se alguem de casa lh'a apanhasse, pudesse a obra passar por brincadeira. A mania de se julgar perseguido pela sorte é uma loucura como outra qualquer, muito frequente em Portugal e tanto mais[{229}] perigosa que se manifesta por gradações insensiveis. Começa pela melancholia, vae azedando o genio, é-se mausinho e tyrannico, e vae-se indo a um estado de ferocidade que póde dar com um homem em doido furioso.
«Coisa má» é querer trabalhar e não ter em quê; querer amar e não ter a quem; querer remar e não ter braços. O politicão que passa a vida a recusar pastas que não lhe offerecem—diz que o paiz tem «coisa má;» o beberrão que troca as pernas—accusa de ter «coisa má» o vinho de mais que bebeu.
«Coisa má» é a mulher que gosta de outro; e o dinheiro que a gente não tem!...[{230}]
XIII
As mulheres de virtude
O meu amigo leitor conheceu já a felicidade? Por mim, conheço-a pouco, e de vista—apenas. Não poderia siquer dizer-lhes em que rua mora nem a que horas está em casa. Creio que sae a miudo, e não se sabe nunca quando recolhe. Lá uma vez na vida, encontra-a uma pessoa, vê-a dignar-se[{232}] sorrir para si, e está-se quasi a tocar na mão em signal de estima; mas ella pede cem contos de réis á gente, e como uma pessoa não os traz comsigo... nem com outro—a marota da felicidade volta-lhe as costas e dá ás de Villa Diogo!