Passam n'aquelle corredor enorme—que o espectaculo monstruoso d'ellas torna maior ainda, correndo; umas gritando, apostrophando, outras fallando ás enfermeiras, outras encolhendo-se de receio ao vel-as, entrando nos quartos, saindo, entrando, dirigindo a palavra ás visitas ou passando-lhes ao lado orgulhosamente, desdenhosamente.
Esta, olha para nós com serenidade e indifferença, e parece dizer[{25}] com a vista que tudo é sempre o mesmo n'este mundo e que não ha ver n'elle nada de novo—grito melancholico, que tem atravessado as edades; idéa triste e fria.
Aquella, que viveu de um sonho e encadeiou todos os seus desejos a uma chimera,—coração ardente, alma profunda e vasta para quem o amor foi tudo,—odeia os homens, indigna-se, enfurece-se em os vendo, e mergulha nas sombras escuras da loucura, nos abysmos tenebrosos da sua idéa fixa, como se procurasse de cada vez segredos novos que a tornem senhora das forças ignoradas da natureza e lhe dêem voz e mando no mundo dos espiritos.[{26}]
Essa, d'ali, conta uma historia. Uma historinha galante. Gostou de alguem. É moça e bonita; o alguem era bonito e moço. Até aqui tudo é risonho, e ella sorri. Depois, veem as nuvens; quizeram affastal-a d'elle, para a levar a outro; o outro era um senhor: o alguem não tinha outra riqueza senão ella gostar d'elle; o outro era poderoso, o alguem era ninguem; casaram-a com o outro. E o resto? O resto não quer ella dizel-o; e é como se o haja deitado ao mar n'uma d'aquellas caixinhas,—tão fechadas que ninguem as podia abrir,—que os pescadores das Mil e uma noites achavam ás vezes e de que sahia fumo escuro pelas fendas![{27}]
A d'além, n'aquelle quarto, estirada sobre um colxão: levantando-se, deitando-se, vindo á porta, estorcendo-se, caindo prostrada: reerguendo-se mais sonhadora, mais desejosa da felicidade e da vida, pensando no amor, sempre no amor e nas venturas ineffaveis: rasgando-se, compondo-se, suspirando, anceiando, é uma mulata; tem duzentos contos de réis de fortuna. N'um dos seus quartos ha um piano, onde vi outras tocando, em quanto ella arredada de tudo e de todos estava entregue apenas á sua inquieta phantasia. É uma mulher esbelta, opulenta de fórmas, lembrando as feiticeiras do Oriente; uma d'essas organisações colossaes[{28}] como as que a terra produzia quando era nova e que absorviam em si umas poucas de existencias!...
As enfermeiras tratam de a tranquillisar, quando observam que com o ver visitas principie a agitar-se; encostam mais a porta do quarto: e continuam caminhando gravemente, com o seu ar impenetravel; impenetravel ao ponto de se estar sempre em duvida ao ver o olhar vago d'ellas se tambem serão...—se as doentes tambem serão enfermeiras?
Vão andando de chave na mão, e apresentam ao director uma ou outra doente que precise ser examinada. Em geral teem ar de boas creaturas essas empregadas, e corrigem[{29}] um pouco pela sua presença a impressão penosa que se experimenta ao atravessar aquelle triste captiveiro.
As doidas cercam-as, pucham por ellas, pedem-lhes para alcançar do director ordem de saida: que já é tempo, que é de mais, que não podem já...
—Ámanhã! respondem ellas sempre. Ámanhã.
E as pobres doidas ficam-se sorrindo áquella palavra:—Ámanhã!