Uma, aqui, sem fazer caso do delirio que vae em roda d'ella não faz senão costurar; coser, coser, coser; e gritam, e pulam, e dançam, e ralham, e atropelam-a, e ella vae costurando, cosendo, cosendo, tranquillamente,[{30}] prudentemente, como se fôra o sol no meio da noite, a acção no meio da idéa, a rasão no meio da loucura!

Outra falla sósinha, e ri. De que está a fallar sempre? De que está sempre a rir? Está a rir das coisas, e a fallar de um certo, por causa de quem veiu a observar que a maior parte dos amantes ficariam contrariados com o possuir para sempre e sem partilhas o objecto da sua adoração; e que, se se dirigem mais homenagens ás casadas do que ás solteiras, é porque o marido é um obstaculo que ninguem supprime, e dá, por isso mesmo, a melhor latitude a protestos de dedicação. Está á janella a olhar para os campos[{31}] e a farejar tormenta em tudo—no voejar dos passaros, na pressa das formigas... Queixa-se de ter conhecido a vida, á sua custa;—a peor maneira de conhecer as coisas. Ás vezes não é segura, e quando se exalta vae dando bofetadas em quem apanha; previnem-me disto.

Ai! a tafula! a tafula! Lá armou o seu chapeu com bocados de chita e papel de todas as côres; duas rolhas, uma penna de rama, e o badalo da campainha. É a catita! É a janota! Pobre e desgraçada elegante, que tem a mania das modas, préga uma saia ao meio da outra para figurar vestido de cauda grande, quer ver-se nos espelhos,[{32}] quer que a achem galante, que a admirem, que digam nos jornaes que estava deliciosa no baile de tal, que tambem deu uma soirée onde estava a primeira sociedade, que a sua toilette era primorosa, que está já em vesperas de partir para o campo, que toda a Lisboa vae ficar saudosa d'ella... E conversa comnosco, e dá ao leque, e coqueteia, e mostra-nos as pulseiras, os anneis fingidos, a sombrinha improvisada; e toda se requebra, e compõe a manga, e pucha a camisinha, e, cuidando ás vezes que se está dançando os Lanceiros, faz-nos a cortezia.

Uma menina, que deve ter vinte annos, apparece á porta de um[{33}] quarto onde estão algumas mais tranquillas a costurar e a fazer crochet. Olha para mim fixamente e como esperando que eu lhe falle. O director vendo isso, pergunta-lhe se me conhece.

—Parece-me que conheço, responde ella.

O director diz-lhe o meu nome.

—É isso mesmo; já vi o retrato n'um livro.

É da Ericeira, esta menina; muitas das leitoras se lembram talvez d'ella, e toda a gente que ali tem ido a banhos lhe conheceu o pae,—o chamado Ericeira, o capitão Ericeira, que morreu ha poucos mezes. Nos fins do ultimo outomno procurou-me uma manhã um homem[{34}] baixo, vermelho, atochado, de cabeça grande, sobrancelhas fartas, perna curta, tronco forte, especie de Han de Islandia em velho; trazia uma carta do meu amigo Augusto Tallone, que m'o apresentava dizendo que por ter lido um folhetim meu a respeito da Ericeira elle quizera conhecer-me;—era o pobre capitão. Conversámos um pouco de tempo; elle fallava com difficuldade. Agradeci-lhe o favor da sua visita e despedimo-nos até o verão, na idéa de que eu fosse á Ericeira este anno; morreu tres mezes depois, coitado, e agora fui encontrar a filha em Rilhafolles!...

A pobre menina tem um parecer agradavel; não alegre, mas suave[{35}] e resignado. As poucas coisas que disse ao director nada tinham de tresvariado nem de demente; o aspecto mesmo é natural, assim no olhar como nos modos. Tem por entretenimento a mania de fazer versos, e cedeu-me uns que estava compondo e que lhe pedi; são versos certos, euphonicos, mas em que não se percebe nunca a idéa e em que as palavras baralham tudo:

Amei, infanta e leda como a aurora
Dos sonhos d'esse infante adormecido;
Ao rei o teu gemido, o teu trovar,
Ao throno o teu sondar encanecido.

Harpejo d'alma, lhana, feiticeira,
Gotejo em teu rollar mil alegrias,
E colho em cada nota que desfiro
Insomnias do porvir, crueis magias.[{36}]