Não morreu, como veremos ainda, a Secundäre Verrücktheit, a despeito de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da Primäre Verrücktheit.
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Voltemos aos trabalhos francezes.
Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios—a ponto, dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança, Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava chefe dos alienistas alienisantes. Modificando as suas primitivas idéas, o celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma passiva, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se mesmo; outra activa, representada pelos que acceitam a lucta e respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado, de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.
Pondo no estudo da variedade activa do delirio de perseguições o mesmo espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma passiva ou commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria, incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta, um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente, offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.
Creando a variedade activa do delirio de perseguições, o notavel professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto, a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.
Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França, essa unidade do delirio de perseguições.
Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia—tudo n'elles é differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque, como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais: na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma, n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou passivos, mas a dos degenerados hereditarios.
A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret, acceital-os como representantes de uma outra especie nosographica.
Pottier desenvolve no seu Estudo sobre os alienados perseguidores as idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos. A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda, perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados hereditarios»[1].