[1] Pottier, Ètude sur les aliénés persécuteurs, pag. 3
A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier: «Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].
[2] Pottier, Obr. cit., pag. 38.
Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma evolução progressiva … Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos, mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].
[1] Pottier, Obr. cit., pag. 39.
A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida, estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que, nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].
[2] Pottier, Obr. cit., pag. 41.
Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas, chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A explicação d'este contagio delirante procede sobretudo, segundo Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo pôr em duvida.
Os litigantes ou processomanos constituem a mais importante cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos perseguidores hypocondriacos que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento seguido, hostilisam o medico assistente.
As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de loucura lucida (folie raisonnante), sub-grupo das degenerescencias psychicas hereditarias. Nas suas Lições clinicas sobre as doenças mentaes, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.