Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje. Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que, intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção, procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade. Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido anthropologico do termo.

Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria.

Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia, porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo, total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo que definimos.

Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.

Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas hereditarias. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais proximos.

Dizer com Magnan que o atavismo não implica degenerescencia, porque um typo regressivo seria normal, emquanto que um degenerado é um doente, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e incompleto, consistindo na revivescencia d'algumas qualidades ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?

E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu terror e do seu automatismo indisciplinado, exemplares de atavismo parcial?

Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um final capitulo d'este Ensaio, nos cumpre suspender considerações, que o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral, conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a Paranoia é uma degenerescencia.

BIBLIOGRAPHIA

TRABALHOS FRANCEZES: