XXXII
—Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te acompanhasse aqui.
—Has de já ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo, que não sei se me deverão censurar, creio até que devem, que esse pensamento não está cumprido ainda.
—Vejo que não.
—Pois é deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom conselheiro, é deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.
E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que só um demasiado rubor trahiria, se a luz fôsse bastante para o denunciar:
—Augusto, está pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provação, até as traições e as suspeitas lhe não pouparam o nome honrado que herdou. Essa posição dá-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. É uma especie de nobreza, de que se não pode exigir humilhação alguma. Por isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo para estender-lhe a mão e dizer-lhe que se, como tenho razão para crer, as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas sympathias podem bastar ás aspirações da sua, se, para ganhar coragem, os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma... e dos meus affectos. É deante de ti, que faço esta confissão, Angelo. Terás que me ralhar por causa d'ella?
Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitação, e tomando entre as suas a mão que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos apaixonados.
Magdalena não teve pressa de retiral-a.
Angelo veio tambem beijar as faces da irmã. Era assim que respondia á pergunta d'ella.
Pobres creanças! Porque a final eram creanças todos tres, creanças a quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e só regando-os de lagrimas é que as mais das vezes se consegue nutril-os.
O olhar de Augusto radiava já com o vivo fulgor da alegria.
—Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas. Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que tenho a cumprir. Hei de ter fôrça para conquistar as provas da minha innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois...
Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o rosto.
Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu:
—E depois sou eu quem tem o direito de exigir que não pare. Bem vê que, depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu coração, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a mão, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a seguir o caminho do Mosteiro.
Depois de alguns instantes de reflexão, Augusto respondeu outra vez com firmeza:
—Tem razão, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.
Escusado é dizer que o Herodes teve de partir só.
O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto tão inesperada companhia, mas não lhe foi difficil, depois do que viu e ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de resolução o seu companheiro de jornada.
Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.
Estes não conseguiram dissuadil-o de partir.
Não havia já estimulo para arrancar aquelle coração ao desalento.
Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro.
O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de tão violentas paixões, que desisto de descrevel-as.
XXXIII
CONCLUSÃO
FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
| Original | Correcção | ||
| Volume I | |||
| [#pág. 144] | precipios | ... | precipicios |
| [#pág. 162] | se se sentem | ... | se sentem |
| [#pág. 169] | a seu seu vêr | ... | a seu vêr |
| [#pág. 264] | uma uma explicação | ... | uma explicação |
| Volume II | |||
| [#pág. 27] | gloŕia | ... | gloria |
| [#pág. 68] | examimal-a | ... | examinal-a |
| [#pág. 95] | encontrassse | ... | encontrasse |
| [#pág. 148] | coisapor | ... | coisa por |
| [#pág. 200] | ovialmente | ... | jovialmente |
| [#pág. 215] | fregrezia | ... | freguezia |
| [#pág. 218] | principalte | ... | principalmente |
| [#pág. 248] | saparámo-nos | ... | separámo-nos |