XXV

Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.
Á porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos; muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova fórma de enterro lhes suscitava.
As murmurações, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do Canada, nem por isso faltavam.
Até da porta da igreja para dentro, até de joelhos, até de contas na mão e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam assim a justiça celeste sobre os impios do seculo, que não queriam enterrar-se no chão sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta, aspergindo-se, persignando-se sobre a bôca, para que Deus livrasse de peccar por palavras, n'essa mesma occasião, ellas entoavam os seus threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do inferno.
Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando ás vezes os caminhos proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.
A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.
Christina ficára a fazer companhia a D. Victoria, que se achára adoentada.
Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada á campa por creanças quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma d'ellas era a pequena Marianna, a irmã mais nova de Christina; as outras, raparigas das vizinhanças, que as senhoras do Mosteiro tinham por suas proprias mãos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com extraordinario apparato, não só em honra da familia do Mosteiro, mas para desvanecer a má impressão dos animos populares por meio da pompa religiosa.
Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que, saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda devia ser sepultada.
O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona, que as nuvens não toldavam.
A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada, que dá ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior intensidade.
A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo, reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma verdadeira auréola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina, recitando as orações da occasião; entre estes havia um de aspecto venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era o cura, santo e respeitavel ancião que, em vez de exacerbar os preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes energicamente os combatia e censurava.
Depois vinha em caixão aberto, e no meio de uma numerosa companhia de creanças, Ermelinda, a quem a pallidez da morte não dissipára a formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da innocencia. As mãos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica alvissima que a cingia, a mesma com que apparecêra no auto, e a cabeça, cercada por uma singella corôa de flores, conservava a graciosa inclinação que lhe era habitual em vida.
As creanças do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e Christina, entre as mais gentis da aldeia.
Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais formoso.
A morgadinha precedêra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com o braço apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada á mão, seguindo melancolicamente com a vista a vagarosa procissão que entrára no cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mão de inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que morrem.
Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera já occupar a posição que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres abriram alas e as creanças encaminharam-se, por entre elles, para a borda da sepultura.
O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.
Uma imprevista occorrencia mudou, porém, o aspecto da scena.
Havia já alguns momentos que começára a ouvir-se um vago rumor, que tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multidão que se approximasse em tropel.
As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma [coisa por] entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas, tres e muitas figuras de homens, correndo em direcção ao cemiterio, gesticulando, berrando, soltando ameaças, algumas das quaes já a distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.
Não era difficil adivinhar a significação d'aquillo. A questão vital do dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar. Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasião da crise popular já antevista.
Cêdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto feroz, berrando e brandindo ameaçadoramente paus, fouces, chuços, e todas as peças do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre sempre ao chamamento da arruaça ou da sedição.
Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito estavamos prevenidos; agora, porém, já engrossado, como a corrente a que no caminho se incorporam as aguas dos algares.
Entre os primeiros vinha o sr. Joãozinho das Perdizes, e ao seu lado o factotum Cosme.
Estes, enraivados, correram para o logar onde parára o enterro, bradando em confusão:
—Alto lá! alto lá! Ninguem se enterra aqui!
—Esperem! Isso não vae assim!
—Não façam a festa sem nós!
—Fóra com os do cemiterio!
—Morram os pedreiros-livres!
—Para a igreja!
—Enterre-se na igreja!
—Olá, sr. abbade, espere por nós!
—Aqui vamos para abençoar a cova!
E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas, gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.
O cruciferario e os padres, á excepção do velho que dissemos, abandonaram o posto; as creanças, pousando no chão e abandonando o esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e chorosas.
A morgadinha conservou-se junto do tumulo da mãe, olhando com serenidade para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lábios, como de anjo que já de longe estivesse vendo o desencadear das paixões humanas, e rindo de piedade.
O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.
—Que querem d'aqui?—perguntou elle, fitando-os—com que fins vieram perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?
—Não queremos que ninguem se enterre no cemiterio—respondeu o sr. Joãozinho.
—É verdade! é verdade! ninguem se enterra aqui!—confirmaram differentes vozes.
—Por quê?—continuou o padre—julgam que Deus não receberá as almas, cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
—Não queremos saber de contos. Não queremos. Já disse!
—Eu não lhes reconheço o direito de querer.
—Ora o padre mestre tem vagares!—disse o façanhudo Cosme—e tu pachorra para escutal-o, João. Para isso não foi que viemos. Sermões para a quaresma. Vamos! cante lá os seus reponsos e latinorio, e ande-me para a igreja. Vamos nós fazer o enterro. Ó Manoel coveiro, traze a enxada e vem d'ahi.
E dizendo isto, o Cosme já se abaixava para levantar o caixão em que jazia Ermelinda.
—A justiça de Deus caia sobre o impio, que com as mãos impuras tocar n'esse cadaver, que está abençoado pela Igreja!—exclamou o velho, indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.
Na aldeia os homens mais endurecidos não são superiores á intimação religiosa. O Cosme retirou a mão, como se receiasse que a imprecação do padre se cumprisse alli mesmo.
Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de hesitação, que tão fataes são ao exito das revoluções democraticas; ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos procuram esconder-se, como envergonhados já do primeiro impeto.
Mas a primeira onda não é a mais temivel; os primeiros bandos populares, que sáem á rua, soltando o grito de revolta, são ingenuos no meio da sua quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cêdo espontaneamente se dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, não são os precisos para ficarem esmagados sob a repressão do poder; quando o grito sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos, mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasião, apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspiração legitima das massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem então a segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque não é a embriaguez do motim que a impelle, é a ideia fixa, o pensamento reservado, o plano de antemão traçado e urdido no mysterio e na sombra. Vem então reforçar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta não tem de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa não vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto; mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no campo da victoria adeantam-se então a colher os trophéos conquistados.
Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procissão.
Á frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos quaes se encontravam padres e mulheres.
A hoste do sr. Joãozinho sentiu-se reanimar com este refôrço.
Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procissão.
—Viva o missionario!
—Viva o santo!
—Abaixo os pedreiros-livres!
E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudações, dizendo:
—Abaixo os maçonicos!
—Morram os jacobinos!
—Viva a santa religião!
Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdão das injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da christandade.
A embriaguez da revolução apoderou-se de novo do morgado das Perdizes. Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que não fôra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixões.
Palpitava-lhe o coração, quando se imaginava caudilho de um movimento popular.
Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.
—Não se consentem aqui enterros, e principiemos já por deitar abaixo estas pedras—bradou elle, apontando para o tumulo da familia do conselheiro.
—É verdade! é verdade! Abaixo! abaixo!
—São invenções dos pedreiros-livres!
—É isso, é isso... Pois não vêem que são de pedra!
—Abaixo! Abaixo!
O sr. Joãozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mãos de um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.
Magdalena collocou-se deante d'elle.
Já não estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da indignação.
—Afaste-se, senhor!—bradou ella, estendendo a mão para o ébrio, que parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os pés nos degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha mãe. Atraz!
A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das resoluções energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi varonis.
O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e ficou enleado.
Porém o Cosme, o seu genio mau, não sei que lhe murmurou ao ouvido, que elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bôca humana.
Estendendo para Magdalena a mão callosa e grosseira, disse-lhe, com um sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:
—Está dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!
Magdalena repelliu-o com despreso e aversão.
—Ah! ah! Faz-se fidalga!—disse o sr. Joãozinho, despeitado.—Pois não anda bem.
O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de escutal-o, bradou:
—Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.
—Abaixo!...—repetiram muitas vozes.
—Pois vá abaixo!—repetiu tambem o sr. Joãozinho, adeantando-se com o machado.
—Para traz!—exclamou outra vez Magdalena, já trémula de exaltação.
O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.
O sr. Joãozinho sorriu.
—Isso é que é mandar! Socegue que não fazemos mal a sua mãe; só lhe queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!—e soltou, ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.
—Abaixo, abaixo!—repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razão se lhe perturbava. Era-lhe preciso defender de uma profanação as cinzas de sua mãe, ainda que fôsse á custa da propria vida.
Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; já as lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a palavra «piedade».
O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda achavam caminho para chegar ao coração, hesitou, resmungando:
—Mau! se temos chôro, nada feito.
Mas já não podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e outros braços se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de profanação.
O sr. Joãozinho cedeu outra vez e levantou o machado.
Imitaram-n'o muitos.
Magdalena então correu a abraçar-se ao tumulo da mãe para o proteger da violencia.
Antes de o abater haviam de a ferir a ella.
Os machados, que já se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns baixaram-n'os, como arrependidos.
O morgado formulou n'uma jura a impressão que lhe estava causando a scena.
Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:
—Tirem essa mulher d'ahi.
Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo facto não viesse desviar as attenções e modificar diversamente o animo popular.
Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximára-se do cemiterio, cada vez mais pressuroso á medida que se affirmava nos grupos alli reunidos.
Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.
A figura da morgadinha, em pé sobre os degraus do tumulo, abraçada a elle, dominava toda aquella multidão.
Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamação, como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significação d'aquella scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no logar do motim.
Era tempo.
A populaça allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas luctas em que elle toma parte.
—Que é isto aqui?—disse o homem, rompendo com os braços potentes a onda que se lhe antolhava.
Á rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho até ao meio do circulo.
Uma só voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.
—O Herodes... É o Herodes!...—diziam, afastando-se.
Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.
Obtendo fiança, graças á intervenção do conselheiro, voltava á terra, ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fôra a unica dor que o atormentara.
O desgraçado não sabia ainda da sorte d'ella.
Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, já não o encontrára na prisão, para onde fôra dirigida.
Vinha cheio de esperanças o pobre homem, porque eram para animar as ultimas noticias recebidas.
Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos, conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.
Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da mãe, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a acudir-lhe.
Ao chegar, porém, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creança do esquife, o qual continuava ainda pousado no chão; fitou os olhos n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.
Nem um só grito de dor lhe saiu dos labios, nem um só movimento de surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creança morta, com as mãos juntas e com as faces extremamente pallidas.
Perante esta terrivel manifestação de dor, que toda se concentra, para n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos, calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os corações.
Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento fervoroso, ajoelhou junto do caixão de Ermelinda, e trémulo, opprimido, quasi sem alento para chorar, approximou a mêdo as mãos das mãos cruzadas da creança.
Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de gêlo; mas, tomando-as outra vez, murmurava:
—Jesus, meu Deus! Está morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto não pode ser, Senhor!... Pois minha filha está morta?
A paixão principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no tom de voz, com que estas palavras fôram pronunciadas, não sei quê tão intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espaço de tempo que as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revolução tremenda, como se uma intima dilaceração o tivesse destruido. Adivinhava-se lá dentro já um desalento mortal, um mal de que se não convalesce nunca. Aquelle homem estava perdido.
—Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes tinha eu feito para m'a matarem?... Ó anjo do Céo! viver eu para te vêr assim!
E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos, que não conseguiam aquecer o gêlo d'aquellas faces.
Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole, fazia já renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.
O Cancella continuava:
—Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me, despedaça-me o coração!... Não me morras assim, filha! Não me morras antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdão. Sim, tu tinhas que me perdoar antes de morrer! Por que não esperaste ao menos?... Pensar eu que hei de vêr-te partir, sem que me dês um beijo de despedida!... que te não hei de ouvir falar! Só! só! Ficar só! Só n'este mundo, Senhor!... Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em quê?
Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.
O Cancella voltou para ella os olhos já marejados de lagrimas.
—Ó menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?... Perdoou-me?... Chora, e não responde... Então não me perdoou? Pois minha filha não me perdoou?
Magdalena respondeu a custo:
—Que tinha ella a perdoar-lhe?
—Não é verdade que eu lhe queria muito? não é verdade que eu vivia por ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus me matasse agora, assim! abraçado a este anjo! Se Deus me matasse!
E outra vez a estreitava nos braços.
Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com voz alterada:
—Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao pé de minha filha morta?
—Queremos que elles a enterrem na igreja—responderam, já tibiamente, algumas vozes.
—Na igreja?... Isso é que não! Sabem quem me matou a filha? Foram elles... Esses que m'a tolheram de mêdos, que lhe roubaram as alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vêdes... Pois não a conheciam? Não a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas festas?... Viram-n'a nunca com estas côres desmaiadas? viram-n'a sem aquelles cabellos louros, que tão bem lhe ficavam? e que elles cortaram sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraçadinha! Não, não te entregarei. Não, não irás lá para dentro. Quero-te aqui, minha filha; aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas vezes o fiz quando dormias no berço, que ficará sempre vazio! Ó meu Deus, que vida vae ser a minha, se te não compadeces de mim, Senhor!...
E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.
—Obrigado, menina Magdalena, por dar á minha pequena um logar ao pé de sua mãe; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormirá em socêgo... A minha pobre filha!
E pousando nos labios frios da creança um beijo prolongado, cheio de paixão e saudade, levantou o esquife nos braços para, por suas proprias mãos, o descer ao jazigo. Antes, porém, de fazel-o, beijou ainda uma vez aquella de que mal podia separar-se.
Cêdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.
Nem um só movimento, nem uma só voz tentou oppôr-se áquelle acto, contra o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.
Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.
O primeiro que o fizera fôra o missionario. Desde que vira assomar a figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.
Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme já não estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a secundal-os.
Os circumstantes quasi faziam já côro com as arguições do Cancella contra os excessos do fanatismo e do beaterio.
—A falar verdade—dizia um—este pobre homem tem alguma razão. Isto de metter scismas ás creanças!...
—E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.
—Tambem é de mais.
—Eu por mim se fôsse a elle... Não sei o que faria.
N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.
Não seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braços e armas para organisar uma sedição sobre uma divisa opposta á que primeiro os convocára.
Ao vêr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de joelhos, suffocado em pranto.
As creancas presentes, por contagio da commoção, a que é tão sujeita aquella idade, choraram tambem.
Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio não a deixou falar.
Só pôde pousar-lhe em silencio a mão no hombro.
O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais desafogado pranto do que nunca.
A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.
Os sons das Avé-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.
O padre velho pronunciou em voz alta a saudação angelica. Responderam-lhe as creancas!
Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.
O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.
A morgadinha voltou a casa com o coração oppresso de tristeza.

XXVI

XXVII

XXVIII

Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de um corredor pareceu-lhe divisar luz.
Henrique parou indeciso.
—Decididamente enganei-me. Não é aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre perguntarei.
E bateu as palmas.
Ninguem lhe respondeu.
Bateu outra vez; o mesmo resultado.
Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.
O mesmo silencio; seguiu até o fim do corredor em direcção á luz; chegou a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada por um candieiro de metal, pousando na pedra da chaminé, em cujo fóco brilhavam ainda uns carvões candentes.
—Parece uma historia de fadas!—pensava Henrique.—Dar-se-ha que a alma da morgada goste ainda das commodidades?
Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mão. Henrique voltou-se e preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:
—Procurava alguem, o senhor?
—Peço perdão pelo meu atrevimento. Bati muito tempo á porta, e emfim como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde é aqui a casa dos Cannaviaes.
—A casa dos Cannaviaes é esta mesma.
—Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que não morava aqui ninguem.
—E não o enganaram. Hoje por acaso é que está cá a sr.a morgada.
—A sr.a morgada?—perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar da resposta e de tudo que via.
—Sim, senhor; a sr.a morgada, e não tarda aqui. Ella esperava-o.
—Ah! A sr.a morgada esperava-me?
—É verdade—disse a mulher, sorrindo.—Adivinhou que o senhor vinha aqui. E o que é que ella não adivinha?
Henrique dava tratos á imaginação para comprehender esta scena.
—Então é a sr.a morgada em pessoa que...
—Que o convida para tomar uma chavena de chá—disse uma voz por traz d'elle.
Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.
Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos labios e a mão estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras, que de tantos encantos a revestia.
Henrique exclamou, admirado:
—A prima Magdalena!
—A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras da minha propriedade, que pelos modos está para ser muito visitada hoje. Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que aquella senhora lhe deixou. A Brizida é quem se encarrega de vir, de quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos não a destruam de todo, e os tortulhos lhe não enfeitem as paredes.
—Mas como soube que eu?...
—Isso é um segredo. Não o esperava, porém, tão cêdo, nem imaginei que nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraçada quando o vi. Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem em recolher-se... Ouve?
E com o gesto indicava a chuva, que já batia com fôrça nas vidraças.
—O peor é se isto não espalha e a Christina muda de tenção.
—O vento é do mar, menina; isto são aguaceiros—notou Brizida, como para desvanecer aquelle receio.
—Pois sabe que Christina vem?
—Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogão, que deve vir muito frio. Accendi o lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco hospitaleiro.—Brizida, olhe que se não percebam lá fóra as luzes, que podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o côro da capella e prepare chá para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo, porque a cozinha está pouco habitavel.
Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta, chegando uma cadeira para o fogão, sentou-se defronte de Henrique de Souzellas.
—Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada, responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?
—Pois não diz que sabe tudo?
—Até certo ponto, entendamo-nos. Não vão tão longe as minhas faculdades que cheguem a devassar intenções, que por ventura á propria consciencia de quem as fórma, repugne acceitar.
—Não é esse o meu caso; as minhas intenções são reconhecidas e approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo commovente de um anjo que ora por mim. É um espectaculo a que ainda não assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?
—Acho-a natural e até... louvavel. O ponto está que a sua convalescença esteja bastante segura já. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias de duas doenças.
—De duas?
—Sim; e a mais rebelde não foi a de que o cirurgião o tratou.
—Então?
—A peor, aquella de que eu havia chegado já a desesperar, era a que lhe tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doença moral; revelava-se por uma maneira de vêr as coisas, de pensar e de proceder verdadeiramente doentia.
—Estou curado d'isso.
—Estará? eu sei!... É certo que já é bom signal admittir que era doença.
—Dou pelo seu diagnostico, prima, e até pelo tratamento que me aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos negocios locaes... e sobretudo em uma paixão sincera.
—Ah! e experimentou a receita?
—Experimentei e curei-me.
—Ou tomou por fôrças de saude o que era apenas o falso vigor da convalescença? Convem não abusar; ouço dizer aos medicos que são perigosas as recaidas.
—Pois teme que eu recaia?
—Por que não? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto motivada por louvaveis intenções... tem ainda assim uma certa feição romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum accidente.
—É um perfeito medico da época; não tem fé na efficacia dos remedios que prescreve.
—Tenho; mas não desacompanho a acção d'elles, isso não. Agora fale-me com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa não se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis já?
—Confesso que algumas...
—E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do coração que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que puzera os pés no Mosteiro, e teimava em ser cego para o não vêr.
—Desde o primeiro dia? Pois Christina...
—Christina deixou de ser creança desde aquelle dia.
—Querido anjo!
—Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella é ingenua, timida, supersticiosa até, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma indole talhada para acalmar as paixões demasiado violentas de um caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperança na vida, mais coragem e mais fé no futuro.
Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para Magdalena:
—Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo tão bem as necessidades do coração dos outros, não pensou ainda nas do seu?
—E quem lhe disse que as tinha?
—Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e não se julgue tão impenetravel, que não offereça leitura aos olhos que a observam.
—Ah! Então leu?
—Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que eu só agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porém, tão recatada, que julgo que ainda a não leu bem o principal interessado n'ella. Cego, como eu fui.
—Não leria?—perguntou Magdalena, sorrindo.—Está certo d'isso?
—E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspiração a adivinhasse. Ha casos d'esses.
Magdalena tornou, mudando de tom:
—É ainda cêdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, verá que sou um doente modelo. Não hesitarei ante a violencia do remedio.
—E por que demora o tratamento?
—Pois parece-lhe que será urgente o caso?
—Prima Magdalena, o que vejo é que ha mais fortaleza da sua parte do que....
—Silencio!—disse a morgadinha, escutando.—Pareceu-me ouvir...
N'este momento a Brizida, que fôra a uma sala immediata, voltou, dizendo em voz baixa:
—Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.
—Então depressa—disse Magdalena.—Abra-nos o côro; mas antes apaguemos as luzes. Teve uma feliz lembrança em prevenir-se com essa lanterna de furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. Não faça barulho.
Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um corredor estreito, no côro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.
Quando alli chegaram, com as precisas precauções para não fazer estalar as tábuas do soalho, havia já em baixo uma luz escassa, que desenhava longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a varanda do côro.
Cêdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem Christina e Torquato.
Caminharam silenciosos até ao altar principal. Torquato subiu os tres degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vélas de cera que, em ennegrecidos castiçaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que não dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.
Christina fez signal então a Torquato, para que se retirasse; e o velho, com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.
Tudo ficou depois em silencio.
Christina então ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a tradição popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou immovel a rezar a devoção promettida.
Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella angelica creatura viera alli agradecer á Virgem o tel-o salvado! Aquelle anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e candido, em que elle já nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de gosar um amor assim!
Magdalena via com alegria a commoção de Henrique.
A oração de Christina prolongou-se por alguns minutos.
Henrique murmurou, ajuntando as mãos:
—Deus te recompense, anjo, a consolação que me dás.
—Não peça a Deus o que está na sua mão—respondeu-lhe em voz baixa Magdalena.
—Que diz?
—Está ou não sinceramente apaixonado?
—Como nunca imaginei que fôsse possivel estar.
—Crê na pureza d'aquelle coração?
—Como na dos anjos.
—Está convencido de que o pode salvar, ella?
—Não ha crédo que professe com mais fé.
—Por que não vae então ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?
—E consente?
A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas escadas que pela espessura da parede iam do côro para a capella-mór.
—Aqui tem o caminho—disse ella.—Siga-me. E, servindo-se da lanterna de furta-fogo, foi descendo com precaução. Henrique seguiu-a.
No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns passos, parou junto de um reposteiro.
—Agora faça o que lhe dictar o coração—disse ella para Henrique.
Este correu o reposteiro com precaução, e achou-se na capella.
Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrára ficava por detraz d'ella, não o viu chegar.
Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a oração.
Ao levantar-se, Christina, voltando a cabeça, descobriu-o, e soltou um grito de susto. A obscuridade que havia na capella não lhe deixou perceber logo quem fôsse, o que mais lhe augmentou o terror.
Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:
—Não tenha receio, Christina. Sou eu.
Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a presença de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar explicações. Henrique accrescentou:
—Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado, Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abençoados prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me as suas orações. Deixe-me beijar-lhe a mão com todo o affecto, com toda a paixão que pode haver na minha alma.
E dizendo isto, levou aos labios a mão, que ella, de enleiada, nem ousára retirar das suas.
—Agora peço-lhe, Christina, que, já que me fez antever as delicias do viver da familia, não me condemne para sempre ao supplicio de não as vêr realisadas. Lembre-se de que não conheci mãe, de que não tenho irmãs, de que tenho vivido só, e de que cêdo voltarei a essa vida solitaria e gelada, que me será agora uma tortura. Compadeça-se de mim. Quer vir occupar no meu coração o logar vago que ha n'elle para as affeições de mãe, de irmã, e de...
—Henrique!...—murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada creança.
—É deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor, é pousando a mão sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que uma paixão ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adoração, rodeada de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo. Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu coração.
Christina tremia sem poder responder.
Magdalena entrou por sua vez na capella.
—Não se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique—disse ella.
Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e inesperadas apparições, correu para a prima.
—Tu, Lena! Tu tambem aqui?!
—Então não me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos, dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu dê por ti ao sr. Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito terminantemente, a tua mão.
Christina não respondeu, senão cingindo-a mais intimamente ao seio.
—Não responderam os labios, primo,—continuou a morgadinha—mas falou o coração ao meu na linguagem das pulsações. Estou-o sentindo.
—E disse?...
—Que havia de dizer? Que sim.
E Magdalena, que tinha a mão de Christina na sua, extendeu-a a Henrique, que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.
Parece-me poder affirmar que d'esta vez já houve correspondencia.
O velho Torquato, farto de esperar de fóra da capella, e achando que as rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.
Ao entrar divisou porém tres pessoas em logar de uma só, que esperava, e recuou estupefacto e aterrado.
Suppôz que almas penadas andavam na capella.
O bom do homem não ousava approximar-se.
Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:
—Não tenha mêdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.
O espanto do feitor não era agora menor. Esfregava os olhos, como se receiasse estar dormindo, e não passava de olhar para Magdalena, para Henrique e para Christina, sem entrar na explicação do que via.
Custou a fazel-o voltar da sua estupefacção.
Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fôra recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o chá.
A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como já percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou algumas insinuações, que a obrigaram a córar, e a rir Magdalena.
Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita intimidade.
—Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso serão!—disse Henrique.—Decididamente é de maravilhas esta casa; o povo tem razão. A morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.
—É verdade, como foi que vieram aqui?—perguntou Christina, já mais desenleiada.—Já sei, foi este Torquato que me não guardou segredo. O que merecia!...
—Eu, menina?! Ora essa! Eu até...
—N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a indiscreção—disse Magdalena.
—Que é?—tornou a prima.
—É a discreção.
—Então por quê?
—Torquato é discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que a verdade.
—Eu...—ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o interrompeu.
—Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presença aqui.
—N'esse caso é justo que fale primeiro Christina.
—Que hei de eu dizer?
—Explica a tua presença aqui. Então não ouviste o primo Henrique?
—Ora, já o sabem.
—Mas talvez não lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bôca.
—Não, não, a minha vinda, essa não tem que explicar.
—Que diz, primo Henrique?
—Não tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido já.
—Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida por um sentimento de piedade e de...
—Lena!
—Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narração dos sustos que ella sentiu por o caminho desde o Mosteiro até aqui. O Torquato não era decerto bastante para lhe limpar a estrada de visões e malfeitores.
Christina poz-se a rir.
—Mas vamos ás explicações da presença dos mais. A Christina avisou o Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...
—Eu?!
Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehensão.
—Se eu o soubesse!...
—Eu... eu não disse... eu... só disse...
Henrique tomou a palavra.
—Torquato não é de todo o culpado. Pois acha que não haveria em mim alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraiçoou-se involuntaria, inconscientemente. Mas quanto á prima...
—Eu? Soube-o tambem do Torquato.
—Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!
—Isso é que não. Eu não disse á sr.a D. Magdalena... Ella é que...
—Foi o que eu disse ha pouco. A discreção do Torquato é que revelou o segredo.
—Como?
—O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.
—Eu a esse não disse.
—Não, a esse quiz occultar, e d'ahi é que veio o mal.
—Ora, ora...
—O que eu sei é que Vicente veio procurar-me á porta do Mosteiro, e ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe não tinha merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha propriedade dos Cannaviaes. E tão irritado estava, que me não quiz ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito enigma. Ao retirar-se, porém, disse-me que não lhe quizesse occultar a verdade, porque do Torquato soubera tudo.
—Eu não disse...
—E depois a prima...
—Eu então chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava pêrro, mas a final falou.
—Mas sabia tambem que eu vinha?—perguntou Henrique.
—Pois não se lembra de que pela manhã me tinha cançado com perguntas a respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu já extranhava a insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao Torquato se lhe falára n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua hesitação e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gôsto de receber o primo em minha casa.
—E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?
—Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pôr a casa em arranjo.
—São mesmo coisas tuas—disse Christina, rindo.
—Mas eu não disse nada—insistiu Torquato.
—Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?—perguntou Henrique.—Que imaginava elle a final?
-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo Henrique...
—Ah! percebo agora—disse Henrique, rindo.—O velho é ciumento por procuração.
Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.
Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique, sorriu com elles.
O Torquato foi o unico que nada percebeu.
Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de voltarem a casa.
—Choverá?—perguntou Brizida.
—Julgo que não—respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o firmamento.
Henrique acompanhou-a.
—A noite está serena—disse ella.—São horas de voltarmos.
—Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas—disse Henrique, —Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas horas—disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:—Mas que agradavel noite! Não poder prolongal-a por toda a eternidade!
—Vamos, vamos,—respondeu Magdalena—o dia d'ámanhã deve ser feliz ainda, porque...
N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse a attenção, calou-se, mal podendo reter um leve grito.
—Que foi?—perguntou Henrique, que o percebeu.
—Nada—respondeu ella, correndo a vidraça e afastando-se da janella.
—Viu a alma da morgada?—perguntou jovialmente Henrique, vendo-a preoccupada.
—Não—respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio séria.—Pode porém haver apparições peores.
—Que é, Lena? Que viste tu?—perguntou Christina, assustada.
—Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.
E, passados poucos minutos, sairam todos os que até alli animavam aquella habitação solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em silencio e na sua quasi desolação.

XXIX

XXX

[principalmente] quando, por sobre as cabeças dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do morgado, compactas e decididas.
O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joãozinho, indo cumprimental-o affavelmente; este, porém, grunhiu-lhe um monosyllabo sêcco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do brazileiro.
Era caso desesperado.
Passára já a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde estava constituida a unica assembléa de que se compunha o circulo eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a nossa narração.
Foi então que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre os quaes o Zé P'reira.
Com este deu-se um episodio comico, que merece menção.
O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que era contra a expressa determinação do artigo 61.º, § unico, da lei eleitoral.
Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mãos do Zé P'reira. Era uma nódoa de vinho.
Discutiu-se, ainda assim, se a nódoa era marca ou não era marca, e se lhe deviam ser applicadas as disposições do § unico do artigo 61.º.
A discussão intrincada foi cortada por o Zé P'reira, que disse com a maior candura:
—Se essa está suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que vocemecê me deu.
O proprio conselheiro desatou a rir.
O brazileiro resmungou:
—Então ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?
-Ora, não bula na chaga, senão temos muito que ouvir—disse o Tapadas, e accrescentou:—ande para deante; deite a sua lista, sr. Zé.
Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista caiu na urna.
Estava a findar a primeira chamada.
Já se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.
A gente de Pinchões, á voz do sr. Joãozinho, apromptava-se para breve entrar em acção na segunda chamada, que ia principiar.
Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do herbanario, cuja inicial era um V.
Até alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram affectas, até deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e paralyticos fôram transportados em cadeiras e em padiolas até a urna para votarem. Mas a freguezia de Pinchões ia abafar a eleição inevitavelmente.
O conselheiro perdeu as esperanças, e o proprio Tapadas sentiu-se desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.
O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.
—Vicente Rodrigues da Fragosa—disse elle, preparando-se já para voltar o caderno.
—Adeante. Esse vae votar a uma assembléa mais longe—disseram alguns.
E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja uma voz trémula, mas sonora ainda, responder:
—Presente.
Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.
Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o velho herbanario, a quem o braço de Augusto servia de apoio.
Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.
Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o herbanario adeantava-se e trazia já de longe o braço estendido, segurando a lista que vinha lançar na urna.
Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor, perante aquella figura anciã e alquebrada, que se dissera erguida do tumulo para responder á voz que a evocára. Todos se lhe afastavam do caminho com respeito, senão com supersticioso terror.
Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio só interrompido pelo som dos passos arrastados do Vicente sobre o lagêdo da igreja.
O conselheiro não pôde mais desviar os olhos do vulto venerando do herbanario; n'aquelle velho, que fôra seu companheiro de infancia, parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade politica, a personificação de um remorso pungente, a primeira apparição de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.
Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam approximar-se o velho eleitor, que já suppunham á borda da sepultura.
Aquella assembléa, erguendo-se silenciosa e reverente, á chegada de um pobre velho, trémulo e enfermo, que seguia apoiado ao braço de um pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.
O morgado das Perdizes, devéras affeiçoado ao herbanario, não teve mão em si, ao vêl-o assim doente e enfraquecido, que lhe não viesse ao encontro, dizendo commovido:
—Ó tio Vicente! pois n'esse estado?!...
O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.
—Arreda-te!—disse com severidade—deixa-me, serpente, que mordes a mão do teu bemfeitor! Não me appareças, que não quero ter-te na ideia, quando estiver a expirar!
O morgado ficou transido de espanto e de consternação ao ouvir estas palavras.
—Ó tio Vicente!...—exclamou, ajuntando as mãos—pois eu que lhe fiz?
—Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle a quem deveis tudo. Vendei-vos como cães, e ficae-vos com esse remorso: eu não o quero para mim.
E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro, que não pôde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:
—Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.
O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.
Então o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela assembléa a procurar alguem. Viu o conselheiro que não ousava approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expressão singular e no fim estendeu-lhe a mão. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.
—Manoel,—disse-lhe o velho em voz sumida—não me cegava tanto o resentimento, que te negasse esta justiça. Eu era ainda teu amigo.
—E sel-o-has sempre, Vicente.
—Sempre que o seja... por pouco tempo será—respondeu o velho, sorrindo tristemente.
—Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?
—Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e outros mais.
A physionomia do herbanario transtornára-se assustadoramente; parecia luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na garganta.
—Já não posso...—murmurou elle.—Queria dizer-te...
E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:
—Era... d'este... Elle é... elle está...
Os braços de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes, ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.
Foi nos braços dos tres que expirou o herbanario, porque estava devéras morto, quando o fôram a erguer.
O alvoroço foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o adro, para onde foi levado o velho, a vêr se era possivel reanimal-o. Todos, á excepção do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.
Os soccorros prestados ao herbanario fôram inuteis.
Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.
Os indifferentes voltaram a continuar a eleição.
Ia principiar a segunda chamada.
O morgado das Perdizes, impressionado devéras por a scena, andava desconsolado por o adro, e só de má vontade entrou na igreja.
O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo, acharam-se sós junto do cadaver.
A commoção tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em que o conselheiro esteve só com Augusto.
N'aquelle instante o coração do homem politico era superior ao resentimento.
—Augusto—disse elle a meia voz—a morte não deixou este infeliz completar a ultima recommendação, que parecia querer fazer-me. Eu adivinhei-lhe porém o sentido, e para prova offereço-lhe a mão de amigo.
E, dizendo isto, estendia-lhe a mão.
Augusto não lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:
—A mão que v. ex.a me estende é a mão do homem que esquece e perdôa as injurias, e eu não posso ser perdoado, porque me não julgo criminoso. Desde que uma vez v. ex.a formulou a accusação e se fez juiz, prefiro, a ter de ser julgado sem provas, uma condemnação a uma absolvição. Fico mais em paz com o meu orgulho.
A presença de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.
Henrique voltou com os aprestes para a conducção do cadaver.
Augusto acompanhou a casa o herbanario.
O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco disposto a permanecer alli.
—Fique se quizer—disse elle para Henrique.—Não estou em estado de receber á queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a mortificação que estou sentindo a essa causa, e eu não lhes quero dar esse gôsto. Vou para casa; lá me levará a noticia, e não me dará grande novidade. Adeus.
E, apertando a mão de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.
Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias circumstancias que a acompanharam.
Não houve quem fôsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixára.
A morgadinha absteve-se da menor allusão á causa que apressára o fim da vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das suas previsões, infelizmente realisadas.
Passada a primeira commoção, que a lembrança d'aquella scena produzira, o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito pela derrota que se lhe preparava na urna.
Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectação era demasiado transparente, para até nem D. Victoria se illudir.
Assim, por exemplo, dizia elle á filha:
—Ora vão realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, está-me a appetecer; a vida politica ia-me cançando já.
Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal simulada satisfação!
Pouco a pouco, porém, a impaciencia começou a apossar-se d'elle e nem estas exterioridades lhe permittia já.
Áquella hora devia estar a proceder-se na assembléa ao apuramento de votos.
Esta ideia lançava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que só pode conceber quem já alguma vez soube o que é ter a sorte dependente de uma votação, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.
Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos tentam alentar com esperanças, revoltamo-nos contra ellas; se procuram preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a ideia d'elle. O silencio não nos é mais agradavel; as apprehensões ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietação é-nos tão intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a todos quantos estão assistindo n'aquelle momento á decisão lenta da sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a ideia de que os nossos amigos tenham coração para assistir áquillo; e comtudo não lhes perdoariamos se se retirassem. Sensações d'aquellas exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta d'ellas.
O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que esperava elle! Não lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de que dispunha? Não ficava, por mais alto que elevasse o cálculo, uma grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento prévio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a tranquillidade da certeza.
É um vivedouro sentimento o da esperança! Não succumbe senão perante um desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, senão talvez por, como as plantas exuberantes de seiva, resistir ás mutilações e renovar os ramos cortados?
O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos, passeiava agitado na sala, olhando ás vezes para a janella, á espera de vêr assomar ao portão do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.
Apesar de todas as prevenções, o que é certo é que a nova, quando viesse, feril-o-ia como imprevista.
Sempre assim succede.
No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direcções por o meio da sala, ouviu-se a detonação de algumas duzias de foguetes.
O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.
Os corações de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo bateram precipitados.
A causa estava, emfim, decidida.
A girandola apregoava uma victoria, mas não proclamava o nome do vencedor; porém, que dúvida podia haver a respeito d'elle?
O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um sorriso amargo, disse para a familia:
—Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!
—Quem sabe, mano? Ás vezes...
Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:
—Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!
—A correr?!—disse o conselheiro, em quem esta simples noticia infundira novo alento a todas as esperanças, e dissipára a sombra das pesadas apprehensões; e caminhou pressuroso para a janella.
As senhoras seguiram-n'o alli.
O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os silvados de um atalho, que vinha dar á avenida da entrada do Mosteiro.
—Parece o Domingos, o criado do Tapadas...—disse o conselheiro, affirmando-se.
—Mas que pressa elle traz!—notou D. Victoria.
—Já nos viu—disse Angelo.
—Lá acenou com o chapéo—exclamaram todos.
—Que quer elle dizer com aquelles signaes?—tornou o conselheiro, nervoso.
—Querem vêr que é o que eu digo! Olhe que venceu, mano.
—Qual! É impossivel. Pois eu não sei como a votação correu? É boa!—disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem não quer que lhe descubram uma esperança.
Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.
Os olhos fitavam-se todos no portão do pateo á espera de o vêr surgir alli. Mal se respirava.
—Eil-o—disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle appareceu.
—Viva! sr. conselheiro, viva!—bradou elle de lá, apesar de esfalfado.
O conselheiro teve quasi uma vertigem.
—Elle que diz?... Como pode...
Não o deixaram continuar as senhoras, que já o beijavam e abraçavam com frenetico enthusiasmo.
Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vêr o pae desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade. É que, na occasião da lucta, não ha animo tão indifferente a estimulos, que não abrace um partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o ardor com que se esposa a causa; os gêlos da indifferença fundem-se nos momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a commoção que esta produz, se se realisa.
O conselheiro queria acalmar aquellas effusões, mas em vão bradava:
—Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto não pode ser... Ha engano...
Mas o animo feminino não entra facilmente na ordem, se chega alguma vez a sair d'ella.
Só a entrada do mensageiro na sala, é que serenou o tumulto.
O conselheiro interrogou o.
—Então que dizes tu? Que vivas são esses?
—Digo que vencemos—respondeu o moço, usando ingenuamente o verbo na primeira pessoa do plural.
—Estás a sonhar?
-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para lh'o dizer. Quando eu saí da igreja tinha vmc.ê... tinha v. s.a mais cento e cinco votos do que o outro, e só havia na caixa uns trinta por junto. No caminho ouvi a girandola...
—Mas é impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. Não pode ser!
—Cento e cinco!
—Estás bem certo no que te disse teu amo?
—Ora se estou. E lá vi a cara do brazileiro. Mettia mêdo.
O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel aquillo que lhe annunciavam.
Não pôde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para ir por seus proprios olhos averiguar do facto.
Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo á frente a bandeira nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares com vivas, hymnos e foguetes. Á frente da musica estava radiante mestre Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!
O conselheiro chegou á janella, e então é que as acclamações fôram estrondosas.
A desafinação da banda chegou a roçar pelo sublime.
O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestação.
Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraçando a trompa.
—Que quer dizer isto?—perguntou o conselheiro, abraçando-os.
—Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem menos—respondeu o Tapadas, rindo ás gargalhadas.
—Cento e trinta e cinco—repetiu o Pertunhas.
—Mas d'onde vieram!
—Ora essa é boa! De Pinchões.
—De Pinchões—repetiu o Pertunhas.
—Como?... Pois o morgado?...
—Votou comnosco como um homem. Ora pudéra!
—É verdade... votou... comnosco—dizia mestre Pertunhas.
—Mas não se viu ainda ha pouco...
—Que estavam com metralha inimiga?—concluiu o Tapadas.—Que tem lá isso? Mas vão lá á igreja e verão as buxas que estão pelo chão. É um destrôço! Parece a loja de um farrapeiro.
—Mas explica-me isso, Tapadas.
—Então não ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda que não fôsse senão por isso deve estar assentadinho no Céo, deu ao morgado? Pois aquillo lá resentiu o homem. E quando, depois do Vicente expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: «Diabos me levem, que se tivesse aqui listas á mão, havia de ensinar os tratantes que me metteram n'esta dança». Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que désse e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim á cara. Hein!... Ora! Foi um momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se põe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinchões á nossa moda. Agora se se queria rir, era vêr o brazileiro! Como elle encafuava para a urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a vêl-o enterrar até ás orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim então é que fôram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas ás cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra o morgado, e se o encontra é capaz de o comer... Para coroar a festa, á girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles, pegamos-lhe nós o fogo e, estourou que foi um gôsto!
E o Tapadas terminou com outra gargalhada.
O Pertunhas quiz protestar contra a accusação, mas o Tapadas voltou-lhe as costas, dizendo:
—Ora adeus, meu amigo! O melhor é calar-se.
E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que estavam proximos:
—Este Tapadas tem cada graça!
Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario. Tinham-lhe falhado todos os seus cálculos politicos, transigira com exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvára-o o elemento que desprezava. Acontece ás vezes d'isto aos homens que muito calculam.
As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as suas demonstrações de alegria.
O conselheiro, porém, ficou preoccupado no meio das festas de familia e das festas populares que se faziam no pateo.

XXXI