Viva a senhora Maria,
A perola das criadas,
Quando se chega á janella
Ficam as estrellas pasmadas.
XX
—Que é isto!... Que tens tu, filha?... Estás doente? Estas não são as tuas feições... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem côr... sem risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Estás doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda, fala!
A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.
—Meu Deus! Isto que é, meu Deus?—exclamava, mais assustado, o pae.—Choras ainda mais? Que te fizeram, filha? Ó Linda, tu não tens pena de mim? não chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar; mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Então?
E com voz trémula, com as mãos unidas e o susto no gesto, como no coração, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicação d'aquelle doloroso mysterio.
Como ella não respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais commovido:
—Ai os presentimentos do meu coração! Não sei o que me dizia isto! Não sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua mãe n'aquelle dia em que... Nem quero imaginar... Ó filha, filha, não vês que me matas assim? Fala!
E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais lagrimas desafiavam á creança, sem que a fizessem falar.
Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraçado parecia louco. Elle apertava as mãos da filha, levava-as aos labios, abraçava-a, tomava-a ao collo, pousava-a no chão; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito inquieto.
Como para melhor examinar aquellas feições queridas, cujo abatimento e pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creança, com as mãos trémulas, o lenço que lhe envolvia a cabeça; mas de repente retirou-as, soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.
Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o lenço da cabeça de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco, abafado pela dor, cortado pelos soluços, saíu-lhe do seio, e elle, o desgraçado pae, desatou a chorar como uma creança.
É que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o enlevo do seu coração de pae, aquelles cabellos louros haviam caído aos golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.
Só quem fôr pae pode conceber toda a desesperadora afflicção em que esta descoberta lançou o coração d'aquelle.
Ermelinda caiu-lhe aos pés, de joelhos, chorando tambem.
Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro senão os soluços de ambos.
A reacção não se fez, porém, esperar muito no animo violento do Cancella.
Afastou com vivacidade as mãos do rosto, ergueu a cabeça, e, com os olhos inflammados de raiva e de cólera, disse para a filha, tremendo e gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe amontoavam no coração:
—Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mão atrevida que fez isto?... Fala! Não ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te deixou os cabellos... E tu, desgraçada, tu, consentiste! Má filha, filha desagradecida e sem coração, que assim deixas que me roubem as minhas riquezas e alegrias! A teu pae!... É assim que pagas o amor com que te tenho creado?... a adoração com que de pequenina te tratei? É assim? É com este desamor?! e com esta ingratidão?!
—Meu pae! meu pae!—implorava Ermelinda, suffocada pelo pranto.—Perdôe! Não se affiija assim, meu pae, que me mata! Não vê?... Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os cortei... A vaidade é um peccado grande.
—Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses? Fala!...
—Por alma de minha mãe, não me fale assim, que me assusta!
—Vá! Pois já não falo... Eu estou socegado... Mas então? eu não hei de saber?... Bem vês que eu precíso de saber!... Vá!... Eu sou teu pae. Ordeno... Peço... Dize, filha, quem foi?
—O missionario...—ia a dizer Ermelinda.
O pae não a deixou proseguir.
—Ah! Já sei! O missionario! É isso! Os padres... as beatas... tua madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim! Vendeu-m'a ás mãos d'esses malvados sem dó, sem consciencia, sem religião, sem Deus...
—Meu pae, não diga isso! Não fale assim, que é peccado.
—Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou... Deus? Se Deus é assim, se Deus quer estas crueldades... Deus não é Deus, e eu não o reconheço nem adoro!
Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritação e o desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas, e a cada momento esperava vêr cair um raio fulminador a castigal-as.
—Por amor de Deus—murmurava ella, com a voz chorosa e quasi sumida—por alma de minha mãe!...
—Cala-te! não fales em tua mãe, que não mereces dizer esse nome! Tua mãe! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me não causar penas, e que só com a sua morte me fez chorar lagrimas, tão amargas e tantas, como eu choro agora!
E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e valente, chorava, porque tinha um coração de pae.
Ermelinda lançou-se-lhe nos braços, cobrindo-o de afagos e beijos.
—Perdôe-me, meu pae! perdôe-me!—dizia ella.—Se soubesse... Fui eu que pedi... Fui eu que sonhei... Não chore assim, meu pae! Não culpe ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvação da minha alma, porque...
—E foi tua madrinha que t'os cortou?
—Foi, mas... É que o missionario tinha dicto... O missionario é um santo!... Não olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mêdo.
E cobria os olhos com as mãos, para não ver a expressão do rosto do Cancella.
—Querem matar-me a filha—bradava elle.—Ó meu Deus! pois não é isto um grande peccado? fazer da creança, linda e alegre, que eu deixei aqui, esta desgraçada rapariga, sem côr, sem risos, sem alegria! Não é isto um crime, meu Deus? Não se vos pode amar e servir, Senhor, senão com lagrimas, com penitencias e com tristezas? Não! Mentem elles! mente esse missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem traz assim o desespero ao coração de um pae.
E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha, cada vez mais gelada de terror e afflicção. Deu alguns passos no corredor, e voltou ao quarto onde a encontrára. Ella seguiu-o de mãos postas, chorando, pedindo-lhe que se não affligisse assim. Mas o Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De repente, parou, fitando os olhos no registo do Coração de Maria, que alli fôra introduzido por a mulher do Zé P'reira. Estava adornado com jarras de flores e vélas de cêra; era a esta imagem que Ermelinda fazia oração, quasi extatica, quando o pae entrou.
—Coração de Maria!—disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a vista fixa na imagem, e como falando para si.—Coração de mãe, e de mãe extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que é querer a um filho, o que é vêl-o padecer... o que é perdel-o... E será ella a que deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creança?... as desventuras de um pae?... Ella! Não! E se tu o queres—continuou allucinado, voltando-se para a imagem—e se não podes ser adorada senão assim, é porque és falsa, falsa como a mão que ahi te pintou, falsa como as bôcas que te prégam os milagres. Vae-te!
E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o caixilho, as jarras e os castiçaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaços no pavimento.
Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vêr aquillo. O terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi lividas, as mãos juntas, quiz falar, mas não pôde; moviam-se-lhe os labios descórados, mas não lhe saía a voz da garganta.
Cada vez mais cego pelo desespero, o pae já não a attendia. Passou outra vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua benta, bradando:
—Vae-te, que estás empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.
Ermelinda lançou-se-lhe aos pés, abraçou-o pelos joelhos para o reter, mas elle não a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a levou de rastos á outra sala.
Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lançou por terra, tudo despedaçava ou rasgava.
N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, não viu a filha que, como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braços estendidos, fazendo esforços para falar, e caindo por fim no pavimento inerte e fria como um cadaver.
Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a madrinha de Ermelinda acudiu a vêr o que era aquillo.
Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella cortou-lhe a fala na garganta.
Era de facto um olhar selvagem e sinistro.
A sr.a Catharina parou.
—Que vem fazer aqui, mulher?—dizia-lhe o Cancella com voz cavada.
—Eu...
—Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeçonhar estes ares, onde metteu a tristeza?
E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava outro.
Crescia outra vez a impetuosidade nas paixões e nas palavras do Herodes.
—Saia! saia da minha vista, se não quer que eu lhe faça como fiz a esses feitiços com que me enfeitiçou a filha, com que m'a quiz matar.
A velha ganhou animo ao vêr-se fóra da porta e por isso disse:
—Lá se vê quem a matou. Repare e diga se não tem remorsos, carrasco!
Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.
Voltou-se, e vendo a filha estendida no chão, quasi como morta, com a pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdão a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.
A velha, que já não o temia, ao vêl-o assim, vingava-se agora chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de Deus... e elle, o desgraçado, tudo escutava humildemente, com remorsos, e implorando misericordia.
—Não! ella não ha de morrer-me assim... Deus não pode consentir n'isto. Não deixará que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o coração!... vive!... senti-lhe o coração bater... Olhe! venha vêr... pouse aqui a mão, comadre, no peito d'ella, aqui... Não sente? É o coração, não é? Não lhe parece que não morreu? Ar, ar, é do que ella precisa.
E erguendo-se, correu, com a filha nos braços, para o meio da rua.
Ermelinda ainda estava sem accôrdo. Juntaram-se algumas mulheres, attrahidas pelo espectaculo e pelas arguições da beata, que não cessára de falar.
Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e pedia por amor de Deus que lhe não dissessem aquillo.
Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido. Ermelinda tinha aberto os olhos.
Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabeça, como se o aspecto d'elle lhe causasse terror.
—Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com maior consternação na voz e no olhar.
Ermelinda, sempre com os olhos fechados, começou a tremer convulsivamente e n'uma anciedade extrema.
—Deixe a pequena!—disse a beata—não vê que lhe faz mêdo? E com razão, pobre creança! depois do que viu!
—Pois eu hei de fazer mêdo a minha filha?—repetiu timidamente o pae.—Eu?! Ó Ermelinda... pois tu...
Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar. Commovido, consternado, passou-a para os braços da velha, e sentou-se a soluçar como uma creança, dizendo entre gemidos:
—Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que desgraçado que eu sou!...
A scena era bastante commovente, para que se não sentissem impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.
Houve um longo silencio, só interrompido pelos roucos soluços do infeliz, em quem entrára o desespero no coração.
Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua, que, a pouco e pouco, se percebeu ser um côro de vozes femininas; cêdo a toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.
Ouviram-se perfeitamente estas palavras:
Vinde, vinde, ó missionarios,
Com a palavra de Deus
Libertar-nos do peccado,
Encaminhar-nos aos céos.
Minha alma por vós anceia,
Ó ministros do Senhor!
E o meu peito em chammas arde,
Em chammas do vosso amor.
XXI
XXII
Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem, invejosos que só almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora caia com elles o partido a que se filiam.
Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mãos dos taes; originou discussões e ataques violentos; e o conselheiro correu risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.
Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma significação dolorosa e triste que só desillusões, como as de Henrique de Souzellas, velhas desillusões de sceptico impenitente, poderiam attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.
A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de familia.
É que a moral é uma. O homem não pode dividir-se; os peccados sociaes de quem é virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da virtude, serão mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel julgamento para o coração de um pae! É justo que a patria peça contas dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que não sabem ser paes, filhos, irmãos e esposos; é justo que a familia exija que se seja fiel á prática e ás crenças que se professam, e castigue, pelo menos com lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para os actos domesticos.
Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no animo da morgadinha por meio de algumas consolações, que uma indulgente moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.
Percebeu porém, que, embora as manifestações do sentimento tivessem cessado já em Magdalena, não se lhe tinha ainda dissipado a profunda e penosa impressão que lhe ficára da leitura.
Como para fazer cessar aquelle genero de consolações, a que Henrique se julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse, em tom já apparentemente sereno:
—Bem; visto que é necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas não se pronuncia claramente.
N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma viagem aos pólos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de manhã os fogões da casa.
Quando D. Victoria foi informada do conteúdo da carta do seu cunhado, levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar de toda a prudencia e dissimulação n'esta pesquisa.
—Aqui entre nós—dizia Henrique—vejamos em quem se pode, com plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem; um criado boçal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de valor intrinseco; porém os ladrões de cartas como estas, são de outra especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta o Mosteiro...
E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para elle com um gesto espantado:
—Porém, minha senhora, eu mesmo não me devo excluir da lista dos indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.as livres para me instaurarem processo.
—Ora essa, primo Henrique!—exclamou D. Victoria.—Era o que faltava! Nada, nada; não se cance; não tem que vêr. Aquillo foram os criados.
Magdalena estava tão abatida de animo, que nem deu attenção a este episodio.
Henrique proseguiu:
—Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem deve excluir da possibilidade de ser réo. O sr. conselheiro, porém, alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que por vingança... Ora actos capazes de trazer estas animadversões a seu pae, prima Magdalena, só a questão do cemiterio, mas essa não importa a ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriações, porém...
Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava, antes de enuncial-a.
—Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.
—Diga, primo, diga—acudiu logo D. Victoria.
—A expropriação da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha áquella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores velhas...
—Então julga que foi o Vicente?—perguntou D. Victoria.—Mas elle não vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.
—Não digo que fôsse elle, minha senhora—disse Henrique, cujo embaraço augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante, como se lhe estivesse lendo o pensamento.
—Então?—insistia D. Victoria.
—Mas—proseguiu Henrique—o velho exerce certa fascinação na gente da terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu não quero seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fôsse rejeitado com indignação por quem me escuta e attribuido a mesquinhos resentimentos da minha parte.
—Faz bem em o abandonar, primo Henrique—disse Magdalena, com severidade.—Entre ser victima de uma traição e culpada de uma suspeita injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, não são garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da suspeita, não quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer arvorar.
—Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do proprio caracter.
D. Victoria não percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:
—Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d'isto é que ninguem me tira.
Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora das lições dos pequenos.
Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de Natal.
A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.
—Muito bons dias, sr. Augusto,—disse D. Victoria affavelmente—então são horas de me vir aturar a pequenada? Não lhe invejo a vida. Sabe? De manhã até á noite a aturar creanças! Deus me livre!
—Agora já não succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte das minhas obrigações—disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e Henrique.
—Como?
—Pois v. ex.a não sabe que já foi nomeado outro professor para o meu logar?
—Que me diz?
Em todas as pessoas presentes produziu sensação esta noticia.
D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O gesto de Henrique tinha uma expressão particular.
—Recebi ha dias a participação official—continuou placidamente Augusto.
—Mas—proseguiu D. Victoria—o mano tinha aqui dito que o seu despacho estava seguro, que, além de ser de toda a justiça, elle o tomaria a seu cuidado. E então agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo menos com esta gente. Isto de politicos...
Magdalena inclinou a cabeça, suspirando.
—Bem vê v. ex.a—disse Augusto, com leve tom de amargura—que ás vezes ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto professor de instrucção primaria da aldeia, e portanto não se deve extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.
Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantára os olhos, encontrou os de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com intenção.
A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgôsto, que se lhe manifestou na contracção da fronte.
—V. ex.a dá-me licença que principie os meus trabalhos?—disse Augusto.
—Ai, quando quizer—respondeu D. Victoria.—Os pequenos estão na sala verde.
Augusto saiu.
D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e não se fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que aproveitavam os pequenos sob tão intelligente direcção.
—Olhe que o Eduardito já escreve e já lê manuscripto como um homem—dizia ella.—Quer vêr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta; ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vêr.
E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de mãe, foi buscar a pasta de Augusto e pôz-se a procurar n'ella a escripta do filho.
—Não vejo ...—disse ella, remexendo os papeis.—Isto que é?... Ai, isto é uma escripta de Marianna... Ora veja.
Henrique fingiu examinar com attenção a escripta.
—Aqui estão os themas francezes d'elle. Quer vêr? Eu d'isso não entendo, mas hão de estar bons.
E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma attenção.
—Ora onde estará a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse. Isto... isto é... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja, primo; olhe que a lettra ainda não é das mais faceis... Eu por mim não a leio... Quer vêr?
Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos filhos.
Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pôz-se a lêl-a no fim; cêdo, porém, começou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.
Offerecendo á morgadinha a carta que lêra, disse-lhe, com um modo que a impressionou:
—Veja se comprehende a significação d'esta carta, que estava na pasta do sr. Augusto, do amigo de seu irmão. A mim parece-me que as creanças não a comprehenderiam bem.
Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a ler.
Succedeu-lhe como a Henrique; cêdo a dominava uma anciosa curiosidade, que a obrigou a ler com rapidez até o fim.
Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao chão; escondeu o rosto entre as mãos e não pôde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.
D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.
—Que é isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?
—É que ha momentos, minha tia,—respondeu Magdalena, fitando-a com os olhos arrazados de lagrimas—em que eu não sei como se resiste á loucura; em que, para não duvidarmos de nós mesmos, é necessario duvidar da Providencia, que dizem que protege os bons.
E levantando-se n'esta agitação nervosa, saiu da sala, suffocada pelos soluços.
D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que ella não podia comprehender.
Henrique respondeu simplesmente:
—Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr. Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.
D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significação da resposta.
—Mas... n'esse caso... visto isso...
—Visto isso, só o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham infelizmente um fundo de verdade.
D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:
—Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta não esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora deixa estar que eu vou... Ahi está o pago que se tira de bem fazer! Ahi está! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...
—Eu retiro-me—disse Henrique, pegando no chapéo para sair.
—Fique, primo, fique... Até é bom que ouça...
—Perdão, minha senhora. É melhor que eu não fique. Ha razões para isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.a e elle, e, se me é licito um conselho, bom será que não seja demasiado violenta.
Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.
Não ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por quê? Não tinha feito o seu dever? Por acaso não era flagrante o delicto de Augusto e irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrára?
Mas em nós todos se deve ter já passado um phenomeno moral, comparavel ao que se estava dando com Henrique. Occasiões ha em que, apesar de todos os argumentos da razão, apesar da conspiração de todas as provas a justificar-nos, persiste em nós uma voz instinctiva a avisar-nos de que commettemos um mal, formulando uma accusação.
Isto sómente não succede a quem tenha adormecidos os mais generosos escrupulos da consciencia; e este caso não se dava com Henrique.
D. Victoria ficou só na sala, meditando na maneira de confundir e castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.
Não se passou muito tempo que Augusto não viesse procurar a pasta que lhe esquecêra na sala.
—Que procura?—disse D. Victoria, que, ao vêl-o, parou junto da mesa.
—Uma pasta que deixei aqui!
—Será esta?—disse D. Victoria, mostrando-a.
—É essa mesma—respondeu Augusto, indo para buscal-a.
—Como vão na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr. Augusto?—perguntou D. Victoria, retendo a pasta.
—Muito bem, minha senhora.
—Já entenderam esta carta?
Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.
—É provavel que já, minha senhora; ainda que não me lembro de haver escolhido esta entre as que v. ex.a me deu.
—Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a imprimir para elles lerem melhor. Não posso consentir que entre n'esses gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que fez, para se mandar pagar.
D. Victoria tirava da raiva, que se apossára d'ella, uma ironia superior aos seus habituaes expedientes de espirito.
Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque não podia comprehender aquellas singulares palavras.
—Diz v. ex.a que...
Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que Henrique deixára sobre a mesa, e mais exaltada já, accrescentou:
—Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.
Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia nem o que queria dizer tudo aquillo.
—Mas, por amor de Deus, minha senhora,—disse elle, já sobresaltado—que quer dizer tudo isto?
—Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de atraiçoar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em esconder as provas da sua villeza.
—Minha senhora!—exclamou Augusto, fazendo-se pallido.
—Fez mal em não nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; nós ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lanço e ficarmos com a carta.
—Oh, meu Deus! pois suspeita-se...
E Augusto, quasi como louco, arrancou das mãos de D. Victoria a folha, e começava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem que lhe turbava a cabeça não o deixavam comprehender o que lia.
Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:
—Agora é que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre é um homem que sabe o que é o mundo...
Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e scintillou-lhe o olhar de cólera:
—Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar que o fizesse. É o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traição infame, uma traição que eu não ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...
—Ha de dar-me licença de ir accommodar meus filhos—disse D. Victoria, interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.
Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:
—Vá, minha senhora, vá; mas se tem a essas creanças amor de mãe, não lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham habituado a amar e a venerar. Peço-lhe por ellas, mais do que por mim. É uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar para toda a vida o coração e talvez que contra si mesma veja voltar-se a desconfiança que lhes semeia tão cêdo.
D. Victoria saiu da sala sem lhe responder; é certo, porém, que não ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso, onde perfeitamente calaram as reflexões de Augusto.
É singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos, commovida.
Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento tivesse visto dissiparem-se todas as esperanças da sua vida. Lagrimas inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vêr-se humilhado no seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos os prestigios.
Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porém, a reacção; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.
—Agora, mais do que nunca, preciso de alento para não succumbir;—exclamou elle, erguendo a cabeça e vindo-lhe ás faces o rubor da exaltação—obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa memoria de minha mãe. A consciencia me dará forças para luctar com a intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador leal. E se ha justiça no Céo, hei de vencer! Não voltarei mais a esta casa, sem ser com a cabeça erguida; não pensarei mais em ti, Magdalena, unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto não saiba que no teu pensamento o meu nome não é o de um infame.
Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.
Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbação, curvou-se respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.
—Espere,—disse-lhe ella, estendendo-lhe a mão, e com profunda melancolia—não saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o reputou sempre innocente.
Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no coração.
Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a estender-lhe a mão.
Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.
—Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!—exclamou elle—precisava d'essas palavras para não enlouquecer.
—Vá, Augusto, vá. Dentro em pouco tempo todos lhe pedirão perdão. Creio-o firmemente.
—E eu não procurarei tornar a vêl-a, senão quando pudér justificar essa generosa confiança. Juro-lh'o.
As lagrimas de Magdalena não podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos; iam soltar-se e já ella, para as occultar, desviava o rosto, quando Christina entrou na sala.
Christina, a quem a mãe acabára de contar o acontecido, parou a ver a scena e a commoção dos dois.
Augusto não se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.
Magdalena deu largas á tristeza, que lhe pesava no coração, deixando correr livremente o pranto.
Christina correu a abraçal-a.
—Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?—exclamou Christina.
E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel ingenuidade:
—Pois tu... amaval-o?
Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.
E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.