Cada soldado um trovão,
Cada golpe um basilisco!
Não se pode ter criados
Hoje em dia, n'esta vida,
Ou quem houver de os ter
Não lhes deve dar guarida.
O meu amo, com ser rico,
Gosta d'estas patuscadas.
Nunca os senhores tiveram
As pitadas tão baratas.
Jesus, Jesus, que é isto?
Jesus do meu coração!
O signal da cruz me livre
De tão terrivel visão.
Desci dos celestes córos,
Por Deus mandada a escutar
Da infancia as queixas e os choros,
Para lh'os ir confiar.
Desci. Na terra, nos mares
Tanta miseria encontrei.
Que os meus magoados olhares
Da terra e mar desviei.
Desci. E tantos gemidos,
Tão dolorosos ouvi!
Que, turbados os sentidos,
Quiz recuar... mas desci.
N'esta colheita de dôres
Pelo mundo todo andei,
No pranto dos peccadores
As minhas vestes molhei.
Vagueando dias e dias,
Chegára á Judéa emfim,
Quando um clamor de agonias
Veio de longe até mim.
O sol, o sol inflammado
D'estas terras orientaes,
Tinha no disco afogueado
Não sei que estranhos signaes.
Soavam menos distantes
Sinistros brados de dôr,
Choros de mães e de infantes,
Cantos de morte e terror.
Vi anjos de azas nevadas
Em bandos subir ao céo,
Quaes pombas amedrontadas
Fugindo á voz de escarcéo.
«Onde ídes? Quem vos persegue?
A que tormentas fugis?»
Um, que triste o bando segue,
Estas palavras me diz:
«Somos as almas de infantes
Mortos em guerra feroz;
Inda das mães delirantes
Nos chama a sentida voz.
«Só a materna saudade
Nossa carreira detem,
Embora no céo, quem ha de
Esquecer, o amor de mãe?»
Disse e o semblante formoso
Com as azas encobriu,
E ao bando silencioso
Silencioso se uniu.
Eu segui. Na impia cidade
Aterrada penetrei...
Ai, da fera humanidade
Os meus olhos desviei!
Que scena! Corre nas praças
Sanguinaria multidão,
Como nuvem de desgraças
Semeando a desolação.
Cáem por terra sem vida
Tenras creanças ás mil,
E uma turba enfurecida
Corre á matança febril,
As mães pallidas, chorosas,
Supplicam, pedem em vão!
N'essas feras sanguinosas
Não palpita um coração.
Outras tentam em delirio,
Os seus filhos disputar,
E com elles no martyrio
Gostosas se vão juntar.
Sobre a terra ensanguentada
Eu soluçando, ajoelhei,
E de intensa dôr magoada,
A Deus piedade implorei.
Findava a prece, e uma estrella
No horisonte despontou,
Pura, scintillante, bella
O caminho me traçou.
Á humilde e escondida estancia
Da venturosa Belem
Cheguei; vi um Deus na infancia
Nos ternos braços da mãe.
Minha colheita de dôres
N'aquelle berço depuz,
Da humanidade aos rigores
Pedi remedio a Jesus.
No olhar do divino infante
Raiou a luz e fulgor,
Foi a aurora radiante
Que annuncia um redemptor.
XIX
Viva a senhora D. Dorothéa,
Raminho de bem-me-queres,
Quando põe a sua touca
É a rainha das mulheres.