—Não, não, não creio.
—Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as aspirações naturaes a um espirito como o seu.
—Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que aspirações são essas que diz?
—Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?
—E espero que ha de satisfazer-me.
—E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou Maria da Azenha?
—Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não me incommódo com isso.
—Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores, posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha…
—Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos trabalhos aldeãos…
—Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos educados para a poesia que ella rescende.