Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.
O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.
Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria, o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio, correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e melancolico.
Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no espirito de Jorge o espectro que o entristecia.
O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos, passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.
Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?
Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.
II
Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos. Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade, de que já fallamos.
Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.