Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos; porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia mais a differença se pronunciava.

Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido. Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae, o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.

As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes podem vir perigos desconhecidos.

Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.

Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias tinha uma memoria ingrata.

Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe haviam imposto como dogmas.

A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.

Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia; deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.

Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.

Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não passaria ella tambem desapercebida.