Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.

O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da sua antiga côrte.

Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.

O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com impaciencia as horas da comida.

Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta, com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo a familia inteira.

D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano, satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os remoques encapotados do procurador.

Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae procural-a a nossa narração.

Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum prático.

D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!

Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida, cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.