E um d'elles á terra desce Junto do berço a velar Para longe do menino
Os sonhos maus afastar.

—Então? Não tem uma linda voz a rapariga?—continuava Thomé, olhando para Jorge, que não respondeu.

A voz continuou:

Dorme, dorme, meu menino,
Que é alegre o somno teu.
E emquanto na terra dormes
Folgam os anjos do céo.

Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianças.

Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia encontrar um caminho direito para o coração d'aquelle pae extremoso, e commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas consoladoras.

Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.

Era tarde já e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas n'este movimento de Jorge actuára uma outra ideia.

Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento. Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitára de proposito o ensejo de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a tactica tivera effeito. A prevenção hostil, de que á força queria armar-se, não era talisman bastante forte para o livrar de encantamento.

Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue, annullava-se o esforço que fazia para quebral-o, e a seu pezar permanecia no perigo.