Desconhecia-se, sentia uma turbação indefinivel, parecia-lhe que o ar livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto do berço de uma criança, e por o espaço entreaberto appareceu a figura de Bertha, com o cabello já meio despenteado e solto, e tendo nos labios o mais suave e affectuoso sorriso.
—Boa noite, snr. Jorge—disse ella, estendendo-lhe a mão, com uma expressão de voz cheia de cordial franqueza.
Jorge estremeceu áquella vista inesperada, mas, dominando-se, correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a mão:
—Adeus; boa noite, Bertha.
—Então o pequeno já dorme?—perguntou Thomé da Povoa, procurando sondar com a vista a meia claridade do quarto.
—Psiu!—disse a filha, pondo um dedo nos labios—socegou por fim. Trouxe-o para o meu quarto, porque não deixava dormir a mãe. Boa noite, meu pae.
E tomando a mão do lavrador, beijou-a com affecto.
—Deus te faça feliz, minha filha—tornou-lhe este, exultando com aquella simples acção.
E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.
Jorge, ao vêr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite, como para libertar-se de uma oppressão que o angustiava. Descobriu a fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli até á Casa Mourisca.