—Eu estou doido!—murmurou elle—que tenho eu com esta rapariga? Era o que me faltava! que me entrasse na cabeça uma doidice d'estas! Estou vendo que não é tão facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com Mauricio não admirava! E então uma criança de collegio… provavelmente estouvada… Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.

Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma criança á meia luz da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada á entrada, com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal, não se lhe tiravam da ideia. Era como a visão de um paraizo que sonhára.

Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho, entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado proximo da janella, com a cabeça sobre o braço dobrado, que repoisava no peitoril, e tão absorto, que quasi não deu pela aproximação do irmão.

Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o:

—Que fazes ahi?

Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo:

—Julgo que dormia.

—N'esse caso farei outra pergunta—que vieste para ahi fazer?

—Tinha calor… cancei-me de lêr… vim tomar ar. Ha um instante.

—Ha um instante? Não diz isso aquella luz, que parece de casa mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com outro; porém em ti é para estranhar a menor irregularidade de habitos.