Essa cabeça era a de Bertha. Mauricio saudou-a com um sorriso e dirigiu-lhe algumas palavras de galanteio. Bertha retirou-se para dentro, depois de elle ter passado, dizendo comsigo:

—É uma imprudencia o que estou fazendo. Vamos; é preciso cautela.

E a terceira vez que o sentiu já não appareceu para o vêr.

Mauricio porém estava contente com a manhã; continuando no seu passeio, dirigiu o cavallo por uma azinhaga cavada em barrancos pelas enxurradas, e depois de difficil e precipitosa descida por entre pinheiraes, veio sahir a outra rua mais larga, ao fim da qual havia uma residencia campestre de menos má apparencia.

Era uma casa branca, de um só andar e ao correr da rua, mas de solida construcção; bem caiada, bem pintada e bem esfregada. Entrava-se para ella por um pateo coberto de ramada, cercado de um muro baixo e fechado por uma meia cancella de castanho ennegrecido. Dentro d'este pateo pouco espaço havia desobstruido; aqui um monte de rama de pinheiro, além duas ou tres rimas de achas, acolá um tronco de larangeira partido, uma mó de moinho, dois carros desapparelhados, dornas, arados, pipas, canastras, escadas de mão, e varios outros utensilios de lavoura e de uso domestico.

Mauricio prendeu o cavallo ao muro e entrou para o pateo.

Abria-se para este a porta da cozinha; vinha de lá um grande rumor de vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clarão avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chamma. Chegando-se mais perto, Mauricio contemplou por alguns momentos, sem ser visto, o quadro que se lhe offerecia á observação. Era uma cozinha aldeã, vasta, desafogada; immenso lar, compridos preguiceiros ao longo das paredes, no alto prateleiros pejados de louça nacional, de panellas e alguidares; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada pá de presunto; o amplo fôrno vomitava lavaredas pela bôca escancarada e a cada instante engolia as novas e enormes dóses de lenha que lhe ministravam; na masseira fumegava já a farinha ainda não levedada para a fornada da semana; e n'ella os braços valentes e roliços de duas frescas moças do campo enterravam-se até os cotovêlos; a um signal d'estas, outras traziam da lareira grandes panellas de agua fervendo, com que acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma peneirava a um canto a farinha para o bolo, outra arrumava o cinzeiro do fôrno com a vara meia carbonisada; limpava esta a pá grande para a introducção das borôas e aquella empunhava a pequena pá de ferro de rapar a masseira. No meio d'esta legião feminina assim atarefada, a patrôa da casa, que, como Calypso sobre as nymphas que a serviam, ou, segundo a comparação classica, como o elegante cypreste sobre as vinhas rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de cada uma e distribuia as tarefas com methodo e intelligencia.

Era esta a ti'Anna do Védor, em quem já ouvimos fallar, a que havia creado aos seus válidos e sadios peitos os dois meninos da Casa Mourisca. Era ella enfarinhada, arregaçada, afogueada, com os cabellos escondidos debaixo do lenço vermelho que atava sobre o occipital, com a voz potente, o olhar fino e os movimentos faceis, apesar dos cincoenta annos já contados.

Á sua vista perspicaz não escapou por muito tempo a presença de Mauricio; e logo que o viu, correu para elle com os braços abertos, exclamando:

—Ai, o meu rico filho!