—É como vês. E não minguam bôcas que a comam. Senhor nos não falte com estas côdeas.

—E o bolo que não esqueça.

—Eram bons tempos aquelles em que vocês ambos o comiam como se fosse maná! Esquecer! Olh'agora! Não ha de esquecer, não, se Deus quizer, que não falta por ahi gente necessitada, com quem se reparta. Vá, vá, raparigada! não se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o serviço não espera! Olh'agora! Deita-me o centeio n'aquella massa, pasmada, avia-te! Parece que nunca viram um rapaz! Bem tirado das canelas é elle, salvo seja; mas isso não basta! Olh'agora! Mas que milagre foi este que te trouxe por aqui a estas horas?

—Um passeio…

—Um passeio!… Hum! ahi anda moiro na costa. Olha lá se me desinquietas coisa que me pertença, que tens de te haver depois commigo… Eu ainda tenho um par de sobrinhas que são moças de mão cheia. Ora olha lá. Quem te désse o juizo de Jorge! Aquillo é outro estôfo! É verdade—continuou ella, dando emphase á interrogação com o poisar das mãos nos quadris—dizem-me que elle é quem dirige agora os negocios lá em casa.

—Ha muito tempo já.

—Pois foi bem pensado! Sim, senhores. Porque olha que eu nunca gostei do frade, Deus me perdoe; e emquanto ao fidalgo, com ser boa pessoa, não serve lá muito para governar casa. E tu que fazes?

—Eu…, eu…

—Passeias; ora pois pudera! Se este senhor havia de fazer outra coisa. Pois não fazes bem, que pelos modos isso lá por casa não está para graças.

—Que é do Clemente, Anna?—inquiriu Mauricio, mudando de conversa.