Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o fitou, Jorge correspondeu, dizendo:
—Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto. Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza, Mauricio?
—Pobreza?!
—Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.
Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.
Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:
—Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia… oh! essa deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira da opulencia.
—Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de enthusiasmo e de fé no futuro.
Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou erguendo-se e com affectado estouvamento:
—Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é… é… é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!