—No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!—acudiu Jorge—Mas antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos, trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.
—Não o nego, mas… na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.
—O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.
—Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá; lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É bom para dissipar visões.
—Não estou hoje para caçar.
—Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?
—Não, vou reatal-o acolá.
—Vaes á Herdade?!
—Vou.
—Fazer o quê?