Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em casa do fidalgo.
Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com elle.
Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não voltarem lá.
Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a mulher:
—Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de morrer.
Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.
—Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada. Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira… ou deixa estar, é melhor entrar lá para dentro.
—Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou sentado.
—Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?
—Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli de cima: por isso desci.