—Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este mundo?—tornou este quasi allucinado—Na tua idade tens já coragem para tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas não vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e perdido, fariam córar de vergonha. Oh! não te invejo o talento de comediante, Jorge.

—Mauricio, repara que não estás em ti.

—Sim, eu tenho esse defeito. Não sei medir as minhas palavras, não sei encobrir, nem disfarçar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te desprézo e te lastimo, e é verdade tambem. Cuidas que não me recordo das tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome sagrado de nossa mãe, a memoria venerada de Beatriz, para quê? para exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de coração de uma rapariga, que uma abençoára e a quem a outra quizera como a irmã; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traiçoeiros e escandalosos.

—Silencio!—exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as palavras do irmão.

—Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; não posso consentir que calumnies quem não está aqui para se defender, e quem tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e não um calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas.

—Que é lá isso, priminho, que é lá isso?—acudiram immediatamente os dois manos.

Jorge não se intimidou.

—Não me assustam as suas ameaças. Sei agora o que significa esta espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco. Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem é de estranhar o conceito que formam das intenções dos outros de que julgam pelas suas. O que lamento é vêr-te associado a esta empreza, Mauricio, porque, faço justiça ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o passo que déste.

—Em vez de sermões, priminho, não acha que seria melhor explicar-nos o que veio fazer a horas mortas a esta casa?

—Não sinto a necessidade de explicar as minhas acções diante de taes juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputação os senhores do Cruzeiro. Resignar-se-hão portanto a prescindirem das explicações que pedem.