Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu:

—Entendo esse riso. Conheço-os. Sei que depois da espionagem se segue a calumnia; mas o meu desprezo é muito grande para transigir. Calumniem.

—Ora essa! Nós sabemos guardar um segredo. Socega.

—Sei qual é o alimento com que se nutre a sua ociosidade. Não importa. Á vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que não serei eu que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque não a frequento.

Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se para Mauricio:

—Repara que já desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora vê se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama, ajuda; o insulto é facil para quem não precisa de se abaixar muito para a apanhar.

Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional prudencia a correcção que lhes infligira as palavras de Jorge e limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou.

Mauricio estava já sentindo remorsos do que dissera ao irmão. Este adquirira sobre elle o seu antigo ascendente.

—Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui—disse Mauricio, arrependido.

—Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdão ao mano—tornou-lhe o padre, rindo com desdem.