O animo irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som d'aquellas palavras meigas. D. Luiz estendeu a mão a Bertha, que lh'a beijou chorando.

Ao sentir-lhe as lagrimas o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabeça, perguntando-lhe:

—Porque choras, Bertha?

—Porque sinto que já não me tem a amizade que d'antes me tinha.

—Criança—disse o fidalgo com uma brandura que havia muito tempo ninguem conhecêra n'elle—que tens tu com as paixões áridas das nossas almas de homens? Os entes como tu e como aquelle que eu perdi, nasceram para as dissipar e não para soffrel-as.

E cedendo á commoção que de novo a dominava, o severo e implacavel D. Luiz, com admiração crescente de frei Januario, apertou a afilhada nos braços e poisou-lhe na fronte um beijo, como os que dava em Beatriz.

E ao separar-se d'aquelle logar ia outra vez com as lagrimas nos olhos.

Ao fim da avenida, d'onde se avistava o portão, voltou-se. Bertha permanecia no mesmo sitio, a seguil-o com a vista.

—Repare, frei Januario, repare; a quem vê d'aqui, a distancia, não parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava á porta da Casa Mourisca?

—Sim, as raparigas ao longe todas se parecem; mas olhe que é noite fechada, snr. D. Luiz.