De repente porém ouviu-se rumor á porta da entrada.

D. Luiz voltou para alli instinctivamente os olhos, sentindo que alguem a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao vêr surgir detraz do reposteiro a figura de Thomé da Herdade.

O pae de Bertha vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada. Trazia as faces mais afogueadas do que o costume, e os olhos mais brilhantes. Em cada gesto e em cada movimento denunciava uma funda agitação, que lhe não era habitual. Ao avistar D. Luiz, não pôde reter uma exclamação, como quem déra com o objecto que anciosamente procurava.

Vencida a turbação dos primeiros instantes, o senhor da Casa Mourisca fez uma cortezia muito grave ao recem-chegado, e dispôz-se para sahir da sala.

Thomé da Povoa não lh'o permittiu.

—Não, não, tenha paciencia, snr. D. Luiz, não se retira assim. Eu vim para lhe fallar e não me vou embora sem o fazer.

D. Luiz parou e respondeu friamente:

—Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu não posso…

—Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o procurador de v. exc.ª. Não foi elle quem me offendeu; não é a elle que devo dirigir-me.

—Ah! então vem aqui pedir-me satisfações?!