—Venho, sim, senhor.

—Tem graça!—observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico sarcasmo.

—Então v. exc.ª acha que um homem que é insultado, não tem o direito de vir perguntar á pessoa que o insultou a razão por que o fez?

—E suppõe que eu já alguma vez me occupei a insultal-o?

—Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc.ª bem sabe quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso não ter brios para imaginar que um homem de bem não se offenderia com acções, como as de v. exc.ª para commigo.

—Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando desdenhosamente para a janella.

Thomé da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitação de que já estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso interlocutor.

O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.

—Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece.

A irritação de Thomé desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumára a obedecer-lhe e a temêl-o quasi.