Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:

—Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram. Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.

—Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer missas, porque depois…

—Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu pae…

Thomé da Povoa não o deixou concluir.

—Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca, eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.

Jorge disse finalmente com resolução:

—Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

—E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o jantar esperava por elle.