Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção, que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter com o pae.

Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar voltou para a eira, cantando.

Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.

IV

Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu capellão-procurador frei Januario dos Anjos.

Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.

Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era para se devassar de prompto.

D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas—a liberdade de imprensa—; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.

De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida pelo governo, que nunca tinha razão.