—É uma allucinação—pensava elle, esforçando-se por dominar aquella fraqueza—é uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca me abandona.
E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.
Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma partiam dos aposentos de Beatriz.
Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a mobilidade que produz o delirio. Ha situações na vida em que a razão mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influição das mais supersticiosas crenças.
D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das apparições.
A distancia permittia-lhe já distinguir a melodia que executava a harpa. Tambem lhe era conhecida; era a de uma canção predilecta de Beatriz, uma musica cheia de recordações para o pobre pae. O presente desapparecia n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se lhe apagára na carreira da vida. Chegára quasi á porta do quarto d'onde partiam os sons. Restava entrar… Mas o que o esperava alli? Talvez se desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir!
A razão de D. Luiz não podia formar juízos sobre o que se estava passando. A mão tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar, subjugado pela força d'aquelle encantamento.
N'este tempo juntára-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho, quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estação, cantava a letra da mesma canção que Beatriz preferia. Era um timbre juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se elevava, havia um não sei quê de mystico e sobrenatural, que veio completar a allucinação do velho.
—Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!—murmurava elle, passando a mão na fronte pallida.—Se isto é um sonho, deixae-me morrer a sonhal-o!
E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e, soluçando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu dizendo em uma desvairada exclamação: