—Ó minha filha! minha filha! Se és tu que assim me arrebatas d'este mundo, tem compaixão de teu velho pae, e não partas sem que lhe appareças um instante que seja!

Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar.

Ao vêr o fidalgo de joelhos, com a cabeça escondida entre as mãos e soluçando, a filha de Thomé da Povoa correu para elle commovida:

—O snr. D. Luiz! O meu padrinho! Ó perdão, perdão!—exclamava ella.

E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe inesperadamente o canto, cedeu o passo á mais sentida afflicção.

Á voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabeça e fitou a afilhada com um olhar espantado e interrogador.

As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas.

—Perdão, perdão, meu bom padrinho—proseguia Bertha, tentando erguêl-o—fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora… mas havia tanto tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas não chore, snr. D. Luiz, por amor de Deus perdoe-me!

O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia ainda vibrarem no espaço.

A commoção violenta quebrára-lhe as forças.