Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a emenda:
—Loucuras de rapaz.
—Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se póde permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas acções de um rapaz se nota, já não apenas o estouvamento e a inconsideração que é propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravação moral, esse rapaz, aos vinte annos, tem já a alma corrompida.
—Mas o que vê mais do que estouvamento nos actos de Mauricio?
—Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos, á Casa
Mourisca?
—Saiba então, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar apaixonado por todas as raparigas bonitas que vê. É o seu defeito. Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil. Parece porém que não tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas instigações d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro fizeram-lhe já por mais de uma vez vêr no irmão innocente um rival preferido, e ahi está. Acrescentando a isto a influencia do estado anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras de uma cabeça estouvada; que por o coração fico eu.
—Perde-se, perde-se—insistia D. Luiz.—Não respeitar os sentimentos mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga, que tem as mais sanctas tradições de nossa familia a protegêl-a! Nem ella! É uma infamia!
—Sabe o que tudo isto está pedindo, meu tio?
—O que é?
—É que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle as melhores aptidões e desenvolver-lhe as más. Creia. O tio deve vencer os seus escrupulos em deixar Mauricio partir.